Em primeiro plano, o mundo prático; depois, o próprio pensamento. Amarras, grilhões por todas as partes. Um campo de ação limitadíssimo e um papel a cumprir, por necessidade. Onde quer que o raciocínio direcione-lhe as lentes, lá estão as garras da conveniência. E nada disso assusta, tudo isso não constitui senão a normalidade. Uns poucos — loucos — porém despertam. Manifestam-se pela revolta. A eles, pela blasfêmia, toda a ferocidade com que um animal reage quando sente-se ameaçado. E resta a revolta, portanto, desaconselhada — para aqueles que seguem conselhos. Já aos poucos, a felicidade de saberem não ser a maioria. Como disse Fernando Savater, é necessário a vocação da liberdade para reconhecer-se um escravo.
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Estoicismo aplicado à inteligência emocional
A partir do momento em que empresários, ou seja, homens do dinheiro, ou seja, homens que dedicam a vida a crescer financeiramente, expandir negócios, conquistar mercados e todo o resto, a partir do momento em que esses homens fazem discursos citando Marco Aurélio e Sêneca ou, como eles dizem, os “estoicos”, então o melhor é queimar de uma vez todos os livros, porque eles são inúteis e nada ensinam. O marketing talvez seja a mais odiosa das ciências por não ter escrúpulos, por apropriar-se de tudo quanto se apresenta útil para vender. Num bom dicionário, haveria de ser descrito como a arte da mentira. Ver aberrações conceituais como “estoicismo aplicado à inteligência emocional” é algo que poderia conduzir à indignação ou desespero. Não conduz, porém, desde que o mundo passe a ser encarado como é: um circo ridículo e infame.
O mais terrível de todos os males
De Camus:
Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo algum mais emocionante do que este.
O horror da vida é a consciência dela
O horror da vida é a consciência dela. É o prever e acertar. É o sentir consoante o esperado. Ver tudo acontecendo, de olhos abertos. Constatar a previsibilidade das coisas, a futilidade infame do esforço, a mediocridade de quanto se pode alcançar. É o viver e não simplesmente ir vivendo, por uma impossibilidade irreversível. Perceber que a consciência, uma vez desperta, não mais torna a dormir. Ser incapaz da vista grossa que caracteriza as pessoas comuns, a saudável falta de percepção — em suma, a aceitação passiva da realidade.