Dignos de estima!

A classe mais estimável de pessoas é a que vive mediocremente de casa ao trabalho, durante décadas, sem fazer muitos planos, deixando a vida correr. Fazem filhos, casam-se, separando-se ou não. Então se aposentam e terminam seus dias com a cara enfiada numa televisão. Imagino esse padrão e digo: dignos de estima! merecedores dos mais ardentes louvores! E todas as outras pessoas aparentam-me, em diferentes matizes, diminuídas e escravizadas do próprio desejo.

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Falta de maturidade e discernimento

Em nossos dias há um narcisismo e uma preocupação excessiva com o sucesso que são um claro sinal de falta de maturidade e discernimento. Ninguém mais se aceita medíocre. Ou vê-se acima do que é, ou vê-se melhor em um futuro próximo. É claro que isso só pode desembocar em depressão. Fico a pensar quão mais leve calha a vida a quem diz ao espelho: “És medíocre! Tua existência não faz a menor diferença ao mundo! Em cem anos, ninguém lembrará de ti!”.

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A vida como ela é…, de Nelson Rodrigues

Ameaço bater na tecla e, antes que bata, uma esposa trai seu marido. Meu dedo toca o teclado e outra consorte replica a ação. Não fecho a primeira linha e milhares de esposas — ou seriam milhões? — traem seus maridos, impreterivelmente, em diversos países e diversos idiomas. Dois mil contos Nelson escreveu em série, dia após dia, durante dez anos, em redor do mesmo tema: o adultério. Então é justa a pergunta: não teria ele exagerado? Não poderia ele, talvez, ter escrito um pouco menos? De casa, escuto o estalar do cinto no vizinho. Não; Nelson, indubitavelmente, acertou em medida.

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Crítica e profecia: a filosofia da religião em Dostoiévski, de Luiz Felipe Pondé

Fechei essa obra e senti-me, pela primeira vez, absolutamente humilhado por um livro. Pensei, convicto, que possuía algum défice de inteligência. E dei graças a Deus jamais ter publicado uma linha. Eu, vejam vocês, já era leitor de Dostoiévski, e havia lido seis de seus livros, incluindo os principais, com exceção de O idiota — e agradeço não ter taxado o livro de cômico… — Pensava, entre outras coisas, o seguinte: sou imune ao niilismo. Para mim, resposta estava clara nas obras de Dostoiévski, e nunca sequer questionei: “Dostoiévski passou a vida falando de niilismo, escreveu centenas de linhas sobre niilismo. Quem sabe o tema não tenha alguma relevância?”. E Pondé, dando-me as boas-vindas e ensinando-me a usar o cérebro, atirou-me num abismo niilista, onde senti a existência pesar. Li seu ensaio e vi que, apesar de duas ou três mil páginas lidas, não sabia absolutamente nada de Dostoiévski. Para resumir: jamais havia percebido as manifestações de Deus em Dostoiévski, o que me permite rematar: não fazia ideia de quem era Dostoiévski. Claro, vi Deus quando Sônia lê a passagem de Lázaro a Raskolnikov, mas nunca vi Deus no silêncio. E aí está tudo: Pondé mostrou-me que, em Dostoiévski, Deus se faz presente no silêncio. Fechei o ensaio resoluto: preciso, urgentemente, deixar essa coisa de estudar. Mas, já de cabeça fria, agradeci existir um Pondé. E disse para mim: lerei novamente cada um dos livros de Dostoiévski. Hoje, creio ter acertado na escolha.

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