A vida parece ter uma mecânica que…

A vida parece ter uma mecânica que, ao menos para aquele que não mente para si mesmo no fundo de sua consciência, calca repetidamente o seu orgulho e escancara a sua pequenez. E se tal parece uma constante, variam drasticamente as reações: alguns se fortalecem, mais conscientes e mais humildes, salpicando a vontade de uma modéstia salutar; já outros, lamentavelmente, descaem num desgosto invencível, destrutivo e paralisante. Daí talvez a razão em Santo Agostinho dizer que o orgulho é a raiz de todas as fraquezas, porque o orgulho, se não cede perante à realidade imposta pela vida, por si mesmo só produz destruição.

A verdadeira vocação solidifica mais facilmente…

A verdadeira vocação solidifica mais facilmente quando não dispõe de um meio favorável. Quando não há incentivos ou, por outra, quando se perde exercendo-a, tudo fica muito mais claro, e brota uma como fortaleza da constatação de que é necessário assumir-se e vergonhoso negar aquilo que se é. Aquele que prossegue, pois, sem um professor, um amigo, um ambiente social ou profissional que o alente, sem um empurrão que seja ou sequer uma opinião favorável, um dia acorda e percebe ter desenvolvido uma vontade sólida como um rochedo. E então tem de agradecer muito por essa conjuntura que afinal o favoreceu.

Em meio à interminável miséria humana…

Em meio à interminável miséria humana, há sempre o exemplo edificante; basta procurar. E é preciso fazê-lo sempre, quando o estudo conduz à necessária imersão na primeira, para evitar que ela turve completamente a visão. Reviver admirações antigas, relembrar-se do nobre e sincero já presenciado, tudo isso consola e motiva, tudo isso escancara o quão mais rico é esforçar-se pelo bom. E se a circunstância consterna, se a existência parece escurecer de súbito, é preciso apegar-se, no mínimo, à consciência desta convicção.

Quase sempre, não é muito o necessário…

Quase sempre, não é muito o necessário para uma grande decisão. Mas é necessário tomá-la e ater-se a ela; é necessário honrá-la. O maior esforço, portanto, é posterior, e envolve converter em prática um estado de espírito, em transmutar uma impressão em valor. Isso não se faz sem que haja uma mudança interior efetiva: assim, fica fácil perceber que a grande decisão transforma, e é grande pelo efeito duradouro que a sucede e não se deixa corromper.