Tanto a tradição cristã quanto a tradição oriental sabem muito bem que o erro pesa muito menos ao leigo que ao conhecedor. Por isso se costuma dizer que se deve refletir cautelosamente antes de se assumir o caminho da renúncia: uma vez feito o voto, a queda é certamente mais severa, e frequentemente irreversível. Assim é para assuntos do espírito. Ai daquele que, ciente do mundo, propõe-se renegá-lo. A partir deste momento, parecerão infinitas as tentações, camufladas cada vez mais sutilmente, sempre à espreita na expectativa de um assentimento mínimo, que não parece nada, mas que consuma para sempre a traição. Daí em diante cai-se e cai-se muito fundo sem que se perceba, passa-se a cometer erros simples, há muito superados, e quando a mente se recorda, num lampejo fortuito, do velho voto, do prévio estado de espírito já inexistente, os quer a ambos, mas já não não pode tê-los, e talvez não poderá nunca mais.
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Embora seja muito mais satisfatório…
Embora seja muito mais satisfatório e estimulante deixar-se guiar estritamente pelo interesse à medida que se avança nos estudos, não há dúvida de que, às vezes, tal postura faz brotar um sentimento de estagnação. Isso porque, adotando a via contrária, isto é, quando se realiza um estudo sistemático e aprofundado numa área específica do conhecimento, a evolução se faz demasiado evidente. A terminologia, de absorvida, passa a ser corriqueira; mais e mais detalhes são assimilados, em ato que fortalece também a base da disciplina, a qual parece tornar-se cada vez mais óbvia. Porém, neste percurso, costuma chegar-se a um ponto em que se nota o grande distanciamento já consumado daquele estímulo inicial motivador do interesse. Então, o impulso filosófico, por essência sintetizador, reclama da inutilidade da especialização e pede abrangência. Assim, a tendência é adotar a postura anterior. Estagnação e inutilidade, pois, são os fantasmas que o estudante tem de aprender a espantar.
Dificilmente se consegue direcionar a vontade…
Dificilmente se consegue direcionar a vontade e controlar quando se alcançará aquilo que se quer. O mais das vezes, quando o tempo não faz com que o intento esmoreça, seja este de longo prazo e, então, virá apenas quando tiver de vir. Salvo engano, é Swami Sivananda quem diz que os desejos mais nobres só se realizam ao renunciá-los, após muitas lágrimas e grande desgaste. Seja como for, a imersão no processo às vezes distrai a mente do avanço que faz; progride-se imperceptivelmente, quando não se experimentando a sensação de estagnação. Quando menos se percebe, atingiu-se o objetivo desejado ou, em casos mais belos, este simplesmente aparece, como por graça.
Um aspecto negligenciado, mas que demarca…
Um aspecto negligenciado, mas que demarca muito bem a evolução de uma personalidade, é a sucessão de rompimentos, conscientes ou não, que vai solidificando aquilo que se pode chamar de passado, e aumentando a lista daquilo que já se superou. Aqui, entram as amizades. Perdê-las sem traumas, de bom grado quando não também voluntariamente, é sinal de que se caminha em alguma direção. Assim, o não perdê-las deveria preocupar, como o deveria a ausência prolongada de rupturas significativas, por talvez sinalizarem uma indesejada estagnação. Quando se avança, algo sempre se deixa para trás.