O grosso da insatisfação nasce da vaidade

É escandalosamente óbvio que o grosso da insatisfação nasce da vaidade; e quanto mais se consegue tolher esta última, menos se experimenta a primeira. Evidente, indiscutível. Porém, costuma ser necessário um estado de desilusão completa para percebê-lo deveras. Não há desilusão sem expectativa, e não há insatisfação sem vaidade. Alimentar este vício é erro grave, porque ele jamais provoca algo de bom. Para aniquilá-lo, às vezes é preciso romper vínculos, cortar raízes; mas o esforço é compensador. Então se pode concluir praticamente que toda insatisfação é sem fundamento, e que a vida é muito melhor quando se rejeita o hábito de reclamar.

É mesmo uma maravilha que Cioran…

É mesmo uma maravilha que Cioran tenha-se mudado para Paris, tenha deliberado viver sem jamais exercer uma profissão, e tenha conseguido! Só de pensar neste sucesso, as ideias vêm… É curioso: parece que algo sempre ocorre em socorro de toda decisão radical desse tipo. Ao menos, é essa a sensação que parece brotar da leitura de inúmeras biografias. Alguém certamente objetará: “Esses, naturalmente, são os que sobreviveram para contar história”. Mas há muitos! Vão aos extremos da angústia e, quando sentem a circunstância insuportável, quando preferem morrer a prolongá-la, assumem o risco, deliberam o impossível, se comprometem a jamais ceder. E, por fim, as coisas acontecem. Ah, ideias!…

A injustiça é uma oportunidade

A injustiça é uma oportunidade. Quando ocorre, há uma gama de reações possíveis. As mais comuns são as mais naturais, e variam da tristeza, do desalento, à indignação. São manifestações compreensíveis, porém irrefletidas. Não impressionam, nem engrandecem. A injustiça, porém, enseja o crescimento pessoal, enseja não somente o não se deixar afetar por ela, o dominá-la, mas também o exercício da mais autêntica compaixão. Nestes momentos, é possível elevar-se acima da natureza, é possível ser grande e perdoar. E, realmente, poucas imagens marcam tanto quanto aquela do injustiçado que, maduro e compassivo, superou a injustiça sem guardar rancor.

A arte da vida é fazer dela conscientemente…

É preciso repetir ao infinito: a arte da vida é fazer dela conscientemente um processo transformativo no qual o sujeito se converte naquilo que tenciona ser. Para tanto, é necessário, primeiro, visualizar, depois, deliberar e, por fim, manter-se fiel ao plano de ação. É claro que jamais haverá uma execução perfeita, e o natural é que tudo contribua para que o plano não se realize. O natural é que, após assumido o voto, brotem obstáculos inumeráveis, manifestados de contínuo de onde jamais se esperou. E o natural é que muitas vezes se tropece, se caia, se traia aquele desígnio inicial. Mas é precisamente diante das dificuldades que ele se realiza, é precisamente em carregá-lo a despeito de tudo e, ainda que ciente das falhas e dificuldades, em não desistir.