O contrassenso de não desejar experiências traumáticas está na realidade de que tais experiências são frequentemente as mais marcantes, mais proveitosas, das quais se pode extrair os mais abundantes e duradouros frutos. Não é raro que uma vida fecunda seja construída em torno delas; uma vida admirável, que sabe sublimar o negativo e criar dele algo de valor. Por que motivo, então, não querê-las? Pelo motivo que, naturalmente, nos inclina a crer que uma vida agradável é superior a uma vida proveitosa. Que engano! E, no fim das contas, não é difícil perceber quão mais satisfatório é poder olhar para trás e admirar o quanto se fez e o quanto se conseguiu transformar.
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Algumas das lições mais preciosas…
Algumas das lições mais preciosas que a vida pode oferecer são aquelas evidenciadas por um contraste para com expectativa comum. É, por exemplo, quando se descobre que a generosidade verdadeira nem sempre se dá por uma aparência generosa; ou, inversamente, que uma violência, um malefício enorme vive camuflado na melhor das disposições. Tais experiências ensinam um monte sobre a qualidade essencial das naturezas e das intenções. Com elas, aprende-se a admirar e a desprezar de maneira não convencional, mas de maneira mais digna, que valoriza aquilo que efetivamente tem valor.
No curso de uma vida, só se experimenta…
No curso de uma vida, só se experimenta a sensação de avanço com inícios e pontos finais. Sem eles, sente-se uma estagnação que, por antinatural, provoca um desconforto progressivo, o qual, ainda que camuflado, tende a intensificar-se até estourar quando menos se espera — e, então, não há como recuperar o tempo que se perdeu. Por isso é fundamental colocá-los regularmente como estacas demarcadoras do progresso. Assim efetivamente se evolui: conservando a iniciativa para novos começos e a maturidade para perceber que algo já cumpriu o seu papel.
Presenciar um único destes momentos…
Presenciar um único destes momentos de “coincidências significativas”, ou “sincronicidade”, para usar a terminologia de Jung, mais do que justifica o estudo do esoterismo inteiro, desde as teorias mais obscuras aos mais exóticos sistemas de divinação. Nestes momentos, percebe-se o quão insuficiente, o quão estúpida é essa concepção cientificista moderna, que se apoia numa autoridade ridicularizada pela violência tremenda, inquestionável e inesquecível de algumas experiências. É presenciá-lo uma única vez, e já se torna difícil interessar-se por qualquer coisa “científica” — cai por terra o sagrado do adjetivo. Então, o verdadeiro problema: imergir neste que é o território mais prolífero de picaretas. Mas não há saída: é ouvi-los, talvez ludibriar-se, e descobrir, no fim das contas, o que foi possível se tirar de bom.