É muito gratificante quando enfim se consegue transformar, conscientemente, uma experiência ruim em um sentimento bom. Instrução nenhuma se compara ao que se aprende após executá-lo, mesmo quando, em teoria, já se soubesse quanto esperar. Fazê-lo uma vez, porém, é útil, mas não basta. Porque tão certo como se aprende com fazê-lo, depois de um tempo o ânimo flutuará. Então a lição aprendida, o sentimento positivo vivenciado, dará lugar a pensamentos e sentimentos ruins. Será necessário lidar com eles, torná-los temporários, se possível breves, e suplantá-los com a memória daquela lição. Nunca se poderá suprimi-los. Por isso, é preciso ter humildade, e jamais ceder à tentação de se acreditar, por um único momento, senhor absoluto de si.
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Não é difícil perceber o que está em conformidade…
Não é difícil perceber o que está em conformidade ou contraria a própria natureza; difícil é deliberar não contrariá-la, e agir em conformidade com esta deliberação. O diabo está sempre à espreita; a vontade sempre ameaçada de trair-se. E embora, às vezes, tudo pareça muito claro, ninguém melhor que nós mesmos para nos convencer da pouca monta da falha iminente. Para cometê-la, basta deixar-se levar, algo que também facilmente queremos isento de culpa, mas que, afinal, sabemos não ser. A inércia é sempre leve, mas não conduz aonde se pode orgulhar de chegar.
“Sou filósofo; faço filosofia”
“Sou filósofo; faço filosofia” — diz o construtor de castelos imaginários, tal como diz aquele que brinca de criar, ordenar e adulterar palavras: “Sou escritor; faço literatura”. E embora ambos, talvez, sintam-se justificados pelo atributo que o ofício lhes confere, a verdade é que nada daquilo que produzem possui sentido existencial. Notá-lo parece bobagem, mas os anos passam e a vida pressiona por uma verdadeira justificação. O filósofo, o escritor, não podem encontrá-la no passado, por terem-no dedicado a motivações exteriores, descoladas de si. Então se arrependem; porventura ainda com tempo para redimi-lo, mas já tendo deixado a influência e o exemplo prejudiciais.
Algumas ideias, é preciso tê-las para depois…
Algumas ideias, é preciso tê-las para depois entendê-las, vivê-las para, enfim, saber de onde vêm. Por isso, se o primeiro contato com elas se dá pelo papel, haverá desentendimento. Quando, porém, dá-se o contrário, é curioso notar que uma ideia, mesmo que já concebida, já experimentada em primeira pessoa, pode ficar como oculta na mente, sem manifestar-se, e como se ainda não tivesse sido devidamente assimilada. Ocorre, então, o contato com sua exposição escrita, precisa e detalhada. A mente se ilumina; capta o sentido e a motivação. E percebe que, sem a experiência prévia, jamais poderia compreendê-la.