O desespero nasce do medo, e este, frequentemente, da percepção de uma situação insolúvel, ou pelo menos vista como tal. Menos aflige a situação em si do que a sensação de impotência perante o seu desdobramento, e o desespero brota como resultado da incapacidade de direcioná-lo através de qualquer ação. Vê-se, pois, que, nestes casos, a irresponsabilidade pode ser um lenitivo. E o desespero é sempre mais ou menos a repercussão de um fantasma mental. É por isso que, quando não se teme a morte, quando não se tem apego, nada acaba parecendo tão assustador. E também é por isso que não se desespera nunca aquele que se ampara na fortaleza da fé.
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A depender de onde se nasce…
A depender de onde se nasce, de onde se cresce, não é difícil que, em poucos anos de vida adulta, já se alcance uma sensação de saturação completa, de total desinteresse e não identificação com tudo quanto o meio tem para oferecer. E, então, é partir. E partir sem reflexão demasiada, porque esta tenderá a desestimular a resolução. Aqui, aparece o problema das condições. Mas não há quem explique como é possível que, mesmo quando estas parecem as mais precárias, a decisão correta triunfa, e em pouco tempo já não há nada que se arrepender. A partir do momento em que a experiência parece absorvida e superada, em que se aprendeu o que dela se podia aprender e ela se tornou indesejável, é abandoná-la para sempre; do contrário, ela se enraizará prejudicando, corrompendo, e já não possuindo nada de novo para ensinar.
Algo acontece na primeira transgressão
Todo adulto sabe que, psicologicamente, algo acontece na primeira transgressão. E quando se percebe, paralelamente à importância de segui-las, a possibilidade de transgredir todas as regras, o impacto é definitivo. Não somente, como se trata de uma experiência fundamental. Tal possibilidade é, afinal, a da recusa, a da escolha, sem a qual não há consciência no ato e, portanto, a conformidade se torna ausente de mérito e sentido. A uma criança, é claro, acaso não seja prudente ensiná-lo; mas o adulto que desconhece esta verdade simplesmente não amadureceu.
O contrassenso de não desejar experiências…
O contrassenso de não desejar experiências traumáticas está na realidade de que tais experiências são frequentemente as mais marcantes, mais proveitosas, das quais se pode extrair os mais abundantes e duradouros frutos. Não é raro que uma vida fecunda seja construída em torno delas; uma vida admirável, que sabe sublimar o negativo e criar dele algo de valor. Por que motivo, então, não querê-las? Pelo motivo que, naturalmente, nos inclina a crer que uma vida agradável é superior a uma vida proveitosa. Que engano! E, no fim das contas, não é difícil perceber quão mais satisfatório é poder olhar para trás e admirar o quanto se fez e o quanto se conseguiu transformar.