O que dignifica o ser é a obra ativa

De Lavelle:

Il n’y a qu’une attitude qui donne à la douleur son véritable sens, c’est celle qui consiste à l’accepter, à la faire nôtre, à lui demander les moyens d’enrichir et d’approfondir notre être intérieur, c’est-à-dire à la convertir en un principe de joie. L’origine de la moralité est la souffrance volontaire.

O que dignifica o ser é a obra ativa que realiza sobre as circunstâncias à sua disposição. A dor, pois, como todo o resto, adquire sentido apenas enquanto transmutada, enquanto absorvida e utilizada como combustível para alguma transformação positiva. Não há mérito ou demérito em sofrê-la; o homem, contudo, só aparece quando a transfigura, imprimindo necessariamente a sua marca individual.

A experiência repetida do irreversível

A experiência repetida do irreversível ensina mais do que qualquer estudo. Só imbuído da noção da inescapável finitude pode o homem preencher sua vida de significado e compreender o valor do momento. Esta repetição persistente, magnificamente representada por Poe em The raven, ensina, de uma só vez, humildade, responsabilidade e urgência, algo que, com semelhante intensidade, livro nenhum é capaz de transmitir.

Apesar de que os primeiros anos…

Apesar de que os primeiros anos de uma vida intelectual pareçam, de longe, os mais frutíferos, nos quais cada um deles como opera uma transformação completa no conhecimento, após certo tempo, embora o avanço aparente perder momentum, é notável o ganho em orientação. Quer dizer: no início, quando tudo é novidade, descobre-se muito, mas o conhecimento se amplia simultaneamente em muitas direções, e dificilmente se vislumbra um direcionamento, dificilmente se percebe para onde o esforço irá conduzir. Após alguns anos, erra-se muito menos, e embora aumentem as dificuldades, avança-se com mais consciência para onde se quer.

Quando se segue a recomendação…

Quando se segue a recomendação de Ortega y Gasset, de Viktor Frankl e de Louis Lavelle, os quais, sob prismas diferentes, ressaltam a importância de buscar a integração da circunstância individual no plano da existência, o ato adquire, decerto, uma solidez extraordinária, e a vida embebe-se de seriedade. Mas há, aqui, um problema inevitável, o de que às vezes a circunstância é tão miserável e deprimente, que sua assimilação chega a ser perigosa. Quer dizer: aquele que deseja mirar e compreender a realidade crua, se tomado por este senso de responsabilidade perante a circunstância, não pode fazê-lo jamais como um observador distanciado e imparcial. O que chama para si é aquilo que sofre, o que busca integrar é aquilo que o estorva, pressiona, deprime. O que faz é o contrário da vereda racional do distanciamento, e esta tarefa nunca é empreendida sem deixar profundas marcas no caráter. O resultado pode não ser nada bom…