O escritor iniciante se escandalizará…

O escritor iniciante se escandalizará se alguém lhe disser que nem o próprio Cioran concordava com as coisas que dizia, mas que, apesar disso, era um autêntico mestre da arte de escrever. Contudo, assim é. E exatamente por isso é tão difícil encontrar autores que escrevem como ele: porque Cioran levou às últimas consequências a necessidade de formular frases potentes. Para ele, não importa o conteúdo daquilo que está dizendo, mas sim o efeito da frase. E, em matéria de frases potentes, não são muitos os autores que podem se lhe cotejar.

Quando se tem alguma vivência…

Quando se tem alguma vivência com apostas e cassinos, e se conhece por experiência própria o ambiente, as sensações e os tipos que costumam rodear uma roleta, as cenas análogas em Dostoiévski, quer em sua ficção, quer em sua biografia, são apreciadas em um novo patamar. O Dostoiévski que teorizava e fazia anotações seríssimas sobre estratégia e probabilidade é uma das figuras mais fascinantes que se pode encontrar num cassino. Não há como não empatizar, e como não se divertir ao vê-lo imerso nesta batalha feroz entre o raciocínio e o sentimento, lutando por delinear algumas conclusões. A vontade é querer tê-lo como amigo. E talvez não haja traço que demonstre mais claramente a coragem e a sinceridade que residiam em seu coração.

Para aqueles de temperamento semelhante…

Para aqueles de temperamento semelhante, os dias passados como Bernardo Soares são tão satisfatórios que é impossível não ansiar por dias sempre assim. Do anseio, contudo, brota a semente do desgosto, uma vez que não é possível tê-los sempre. Às vezes, nem sequer é possível tê-los. E quando se permite o prolongamento da falta, a mente, recordando da sensação indescritível da placidez fecunda, criadora, imaginativa, lamenta a impossibilidade de produzi-la quando quer. É preciso agir. Mas seja eternamente bendito o senhor Bernardo por nos ter ensinado uma rota segura para a satisfação!

Elon Musk continua, semanalmente…

Elon Musk continua, semanalmente, me atiçando a fazer uma loucura. Segundo ele, o meu futuro já está garantido, a minha vida já está ganha. “Não se importe com o dinheiro”, aconselha-me o multibilionário. E eu, emocionadamente querendo convencer-me, repasso em mente exemplos que vão de Fernando Pessoa aos renunciantes da Índia, de Taleb a São Francisco de Assis. Tudo converge para o ato desarrazoado que, diz-me agora minha própria mente, se provar-se mesmo desarrazoado, será pelo menos corajoso, estimulante ou, no pior dos cenários, singular. “Vou chutar o balde!”, digo a mim mesmo, sabendo que não serei capaz de fazê-lo. Eu, imaginando qual tamanho teria a pilha de meus insignificantes boletos ainda a serem pagos, só posso sorrir a Elon Musk.