Muito frequentemente, a melhor ferramenta de autopromoção literária é a crítica. E muito frequentemente, tal crítica acaba descaindo em maledicência simples. Os exemplos são infinitos. O autor, às vezes futuro autor, começa a carreira contrapondo-se ao modelo que desgosta. Censura, reprova, enumera defeitos, desabona. O alvo, geralmente morto, não o responde. E fica por isso mesmo. Se, por um lado, o crítico acaba amadurecendo as próprias ideias com a crítica; por outro, não evita que dela brote um sentimento ruim. Tempo depois, há de pensar: aquilo era mesmo necessário? E ocorre que, em literatura, os estilos, os temas, as possibilidades são tão variados que é muito fácil não gostar de algo, quando confrontado com aquela outra intensíssima identificação. Justifica, pois, que um escritor se dedique a atacar outro escritor? Sem dúvida, mas apenas quando a mera preferência é suplantada pelo sentimento de traição à vocação.
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Alguns dirão faltar um Walt Whitman…
Alguns dirão faltar um Walt Whitman, faltar um Eliot; contudo, o que há de mais evidente na poesia brasileira é que os bons poetas contam-se às dezenas, e isso não é pouca coisa. Poetas como Maranhão Sobrinho, Junqueira Freire, Raul de Leoni, José Albano, Venceslau de Queirós não costumam ser sequer mencionados em antologias e compêndios. A tradição, por sua vez, já ostenta alguns séculos de consistência e solidez. E por mais que, após uma análise superficial de novos e velhos poetas, de temáticas batidas ou importadas, se possa ceder ao impulso de menosprezar o todo, o estudo aprofundado não deixa dúvida quanto a tremenda tolice de fazê-lo. A poesia brasileira é ótima; e nada mais é preciso dizer.
A qualidade de Rubem Fonseca
Não são necessários muitos contos para perceber a qualidade de Rubem Fonseca. E deve irritar um bocado aos padecentes daquele velho complexo o notar que Rubem Fonseca, no gênero, alcançou o nível dos melhores. Menos impressionam o domínio de variadas técnicas narrativas, a criatividade na arquitetura dos enredos, o vocabulário um tanto chocante, que a incisividade das temáticas e o estilo que não se furta de dizer. Nisto, sobretudo, o grande escritor se destaca. Apartando-se de uma tradição que insinua, que ironiza, mas que teme a expressão crua e direta, Rubem Fonseca consegue relevar problemas verdadeiros escancarados pela realidade de seu tempo. Em resumo, é um escritor ímpar que teve coragem de pôr no papel aquilo que lhe pareceu essencial.
Declínio de um homem, de Osamu Dazai
É incrível a simpatia despertada por um tipo como esse Osamu Dazai. A leitura já se distancia no tempo, mas permanece a imagem da grande aflição. Aflição esta conhecida, muito conhecida, a qual nem a barreira do idioma consegue desfigurar. E lembrar, nesta obra, aquelas ideias repetidas, desagradáveis, perigosas, que quando se instalam na mente é deveras de se temer… A aura que emana deste pequeno livro dispensa comentários. E também as razões da inevitável simpatia. Tão humano Osamu Dazai, tão como nós… Dele, perdurará a memória do escritor que não brincou, que enobreceu a arte pela seriedade de sua motivação.