A impressão que se tem hoje é de que nunca, nem após a Segunda Guerra, esteve a literatura tão contaminada da política. Mas o contexto é muito, muito diferente. A começar pelo fato de que, no passado, a guerra interpôs-se violentamente na vida de muitos escritores, levando a consequências radicais e terminantes. Ignorá-la, para o escritor, seria faltar com o dever. Depois, a inserção da guerra na literatura deu-se, ao menos nas grandes obras, tal como se deu nos milhares de vidas: como componente de dramas humanos complexos e, sobretudo, reais. Bem diferente é a situação atual, da qual somente uma coisa merece ser dita: não haverá mãos idôneas suficientes para depurar o lixo que estas últimas duas décadas produziram.
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É compreensível o grande interesse…
É compreensível o grande interesse, e até nobre interesse dos críticos na literatura contemporânea. Há casos em que, sem eles, o público não tomaria conhecimento, ou não saberia estimar ótimos autores. Também é compreensível, e sob muitos aspectos benéfico quando o crítico consegue estabelecer laços pessoais com um ou vários autores. Porém, talvez não haja mais evidente armadilha a ser colocada em seu caminho, e destas capazes de arruinar a longevidade de sua obra. É chocante observar como, às vezes, podem coexistir na cabeça do crítico um senso histórico apuradíssimo e o mais completo descompasso quando se trata da literatura atual. Isso se percebe, é claro, quando o atual envelhece, escancarando o quanto dele o crítico deixou-se contaminar. Nestes casos, a coragem e a probidade de emitir um juízo sempre sincero pouco fazem para atenuar o problema: tudo parece incoerente quando se tem como norte um desajustado senso de proporções.
Só com bocejos se pode responder a velha teoria…
Só com bocejos se pode responder a velha teoria, revivida de tempos em tempos em nova roupagem, segundo a qual a grande arte é aquela que se limita a retratar a realidade com exatidão. Fosse isso, bastaria que conservasse a fidelidade, e seria grande a arte que retratasse a cena mais estúpida, repulsiva, banal ou desinteressante. Em verdade, é o efeito contrário que alcança caso se detenha minuciosamente em algo que deveria desprezar. Para confirmá-lo, basta imaginar o ridículo que seria uma peça musical na qual o compositor se esforçasse por replicar com perfeição alguns “sons da natureza”. Só é grande a arte que, valendo-se do meio que for, eleva aquele que com ela entra em contato, ou pelo menos guarda tal possibilidade; o resto é tolice.
O fato de que, no ocidente, o contato…
O fato de que, no ocidente, o contato com estas Mil e uma noites se dê quase sempre através de adaptações infantis nas mais variadas formas esconde um pouco a importância literária desta obra, que transcendeu todas as barreiras imagináveis e impregnou-se na cultura popular. Pouquíssimos chegam a lê-la integralmente, a despeito de sua influência se ver sugerida com frequência. A verdade é que, tal como a mitologia grega, esta obra tornou-se obrigatória ao estudante da literatura. Ainda que o valor das histórias fosse nulo, conhecê-las é testemunhar a força de uma narrativa, que pode atravessar o tempo e as barreiras culturais como se fossem nada, transformando-se em patrimônio humano comum. Não é preciso dizer mais.