Na vida de estudos, cedo ou tarde…

Na vida de estudos, cedo ou tarde, tem de ser desenvolvida a habilidade de lidar com o paradoxo de que só se deve, ou só se deveria ler aquilo que se deseja reter, embora o conhecimento de pilhas e pilhas de livros seja necessário para o avanço em qualquer estudo sério. Para este dilema, nunca há solução definitiva. É preciso ler, e ler lentamente; mas o interesse real que sustenta a leitura atenciosa quer ir atrás de fontes, quer alargar mais e mais a própria compreensão: o resultado é uma lista de próximas leituras que só cresce, indefinidamente. Logo se percebe que não é possível ler tudo quanto se pretende, que é preciso escolher. Mas escolher já encerra outro problema: é preciso mesclar o seguro ao misterioso, ao inexplorado, pois nunca se sabe exatamente o que neles se pode encontrar. Enfim, o estudo tem de se deter em listas, títulos, índices, e se não encontra tudo o que procura, é força reconhecer que a finitude denota necessariamente um limite naquilo que se pode procurar.

Em literatura, não se ensina o bom gosto

Em literatura, não se ensina o bom gosto, e também não se ensina, nem se pode racionalizar, essa fina percepção que o bom leitor desenvolve e é infalível para detectar a falsidade num texto. Às vezes, mesmo que o autor impressione no manejo da linguagem, mesmo que a trabalhe com habilidade e, linguisticamente, o texto soe natural, tudo estará perdido caso ele careça de autenticidade. Neste caso, o falso berra e não há truque capaz de camuflá-lo.

Se é legitimado pela repetição o drama…

Se é legitimado pela repetição o drama do jornalista que passa a vida carregando o sonho frustrado de fazer literatura, é preciso notar que, na maioria dos casos, tal sonho não passa de uma imagem idílica, como qualquer outra, concebida sem reflexão. O jornalista frustrado nunca reflete sobre aquilo que o jornalismo lhe proporciona e a literatura muito, mas muito dificilmente poderia igualar. Em primeiro lugar, um salário; depois, reconhecimento e reputação. Se bem analisarmos, são coisas sem as quais qualquer jornalista só se imaginaria trabalhando num pesadelo. Mesmo o pior jornalista recebe um salário e goza de algum prestígio, tem algum público que o escuta e que o lê. Num cenário sem nada disso, ainda faria literatura? É claro que não. Portanto, o alegado drama é sempre mais fantasioso que real.

A literatura, impossibilitada como se tornou…

A literatura, impossibilitada como se tornou de ser profissão, só pode hoje gerar uns tipos inadaptados e anormais. Porque, afinal, praticá-la é não menos que trabalhar sem expectativa de retorno, algo que ninguém conscientemente faz. Assim, o escritor como que destaca uma parte de seu tempo da “vida normal”, e quanto maior essa parte, quanto mais for autenticamente escritor, mais se afastará da norma, mais se concretizará anormal. Não há solução. E se é quase incontornável a tendência de que fracasse em levar uma vida comum, ao menos tornou-se mais fácil verificar a sinceridade de sua vocação.