Nunca me esquecerei desta cena! Um doutor respeitadíssimo, diante dos alunos, instruía-os quanto à organização da sala para a aplicação imediata de uma avaliação. Disse respeitadíssimo e reforço: o doutor era de uma imodéstia espetacular e gabava-se, a cada frase proferida, do prestígio que lograva a nível nacional em sua área de atuação. PhD, rico, fora o resto. Ele falava e eu aguardava a entrega de minha prova. Então ele puxou um pincel e escreveu no quadro como gostaria que a sala fosse organizada: à esquerda, do número tal a tal; à direita, deste àquele outro. E foi que eu vi, com meus próprios olhos, o exímio doutor grafar no quadro “de 1 a 15”, “de 15 a 30” substituindo os “a” por “há”. Eu vi. Não foi ninguém que me contou.
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A grandeza de um artista não se mede segundo os “belos sentimentos” que ele desperta
Novamente, vamos de Nietzsche:
A grandeza de um artista não se mede segundo os “belos sentimentos” que ele desperta: só as mocinhas acreditam nisso. Mas segundo a intensidade que emprega para atingir o grande estilo.
400 dias sem Dostoiévski
Exercito-me a tara por números. Completo, neste momento, 400 dias sem ler uma página de Dostoiévski. Tudo indica que perseguirei o recorde de 635 dias de abstinência desde o primeiro contato. Pareço divertir-me buscando em outras bandas o que já sei que não irei encontrar. A obra de Dostoiévski é um palco raro onde estão representados os verdadeiros e maiores problemas da existência humana. Mas não é isso o que eu queria dizer… Tenho o hábito de evocar-me em mente os ídolos e fazer comparações. Reparo-me os problemas e reviravoltas medíocres, então visualizo, por exemplo, o gênio órfão de mãe aos quinze, de pai assassinado aos dezessete e condenado à morte dez anos depois. Mas não é só isso. Comparo-me, também, o amargor das linhas com a luz que emana das do gênio. Tudo isso ainda que não esteja em contato físico com seus livros. Então reflito. Bem se sintetiza uma obra expondo-lhe os problemas abordados e, quando há, as apontadas soluções. Mas além disso: faz-se bem delineando os diversos matizes que a compõem. E em Dostoiévski o bom humor sobeja, ainda que o cego o não enxergue. A biografia se lhe resume numa sucessão de dificuldades das mais variadas naturezas, e a obra, sintetizada, representa um olhar esperançoso e otimista que prevalece sobre todas elas. É interessante notar o contraste, quer dizer, o aparente contraste que enxergamos quando lançamos mão da ótica míope e materialista que resume a experiência em situações “boas” e “ruins”, “sucessos” e “infortúnios” e comparamos vida e obra de grandes personalidades. Se consideramos que uma obra reflete, em grande medida, a experiência, a mente aponta-nos impressionantes conclusões.
Mas peço o impossível…
Energizemo-nos de Zaratustra (em tradução de Mário Ferreira dos Santos):
Mas peço o impossível; rogo, pois, à minha altivez, que acompanhe sempre a minha sabedoria!
E se um dia me abandonar a minha sabedoria — ah! Ela gosta tanto de voar! — possa então minha altivez voar com a minha loucura!