A prosa de Paul Valéry

Incrível como a prosa de Paul Valéry é contagiante! Especialmente nos ensaios, deparo-me com uma vivacidade enorme, inédita, em linhas que expõem grande curiosidade, erudição em variadas áreas, leveza no manejo do idioma, precisão nas observações e, acima de tudo, um olhar a mim todo novo. Surpreendo-me, por exemplo, com alguns adjetivos. Discorrendo sobre experiências intelectuais ou literárias, lá está o cativante délicieux, ainda que na forma adverbial. Salvo engano, esse adjetivo jamais foi evocado uma única vez por estes dedos mórbidos, nem em prosa, nem em verso, nem em nada. Incrível! E, analisando as descrições de Valéry, a assimilação intelectual de suas experiências, suspeito-me a percepção falha — ou será a experiência? Tanto faz… Trabalhemos! E comecemos com esta nota: a prosa de Valéry é deliciosamente empolgante!

Uma vida paralela

O artista do século XXI ou, antes, o sequioso da alta cultura necessita de uma espécie de vida paralela, de um destacamento do meio para que, sozinho, possa caminhar. A alta cultura repele a vida cotidiana moderna, o meio lhe é nocivo, hostil, e não há nada que se possa fazer para absorvê-la senão trancar-se em isolamento. Do contrário, é contaminar-se e perder a capacidade de distinção, apodrecendo como o fez a própria cultura. Se, de um lado, tamanho contraste pode evidenciar uma perda gradativa do papel, ou talvez da influência da alta cultura na sociedade, doutro, a nível individual, restam facílimas as decisões.

Preferências da maioria

Continuo, obsessivo, em meu diálogo mental com Tolstói. É verdade, nunca conheci pessoalmente um mujique, nada sei sobre suas preferências artísticas. Mas sei sobre as da maioria brasileira. Viro-me a Tolstói e digo: “Dê uma olhada”. Abro, de uma só vez, as listas de maiores bilheterias no cinema, de músicas mais tocadas e de livros mais vendidos no Brasil no último ano. Para meu espanto, encontro Orwell e Emily Brontë. Para o espanto de Tolstói, são dois nomes em meio a um mar de lixo. “Está vendo? — digo-lhe sorrindo — a maioria tem horror à verdadeira arte”. Tolstói me não responde, deve estar a refletir sobre as críticas que teceu sobre a música de Wagner…

Unidade única

O germe vem à anímica estrutura
Do bem, mostrando bem no dito infando:
O verme quando a presunção tritura
Tritura a presunção purificando!

Há noite e dia, a noite vem sempre antes
Do dia, noite e dia, nunca o inverso:
A treva expulsam raios fascinantes
Tal como um verso segue o outro verso!

A flor não morre em chão ao decompor-se;
Lhe não escorre o ser, somente assume
Melhor feitio: desmanchando a flor se
Conduz ao céu em forma de perfume!

O pão beato curva e sega a fome
E à plantação rega a beata chuva,
O leite existe pra que o homem tome
E o vento quando sopra ao barco adjuva!

O universo de tudo sempre cuida
De dar sentido, unir, essa unidade
Matizes vários tem, conquanto fluida
E sempre idêntica em finalidade!

Ó porco amigo, sigas engordando!
Pois quanto existe, porco, o alimento
Existe a dar-te! Neste mundo brando
Ir-te-ás em infinito alargamento!
Ó porco, sigas sempre acreditando
Que o mundo existe ao teu contentamento!

(Este poema está disponível em Versos)