Se é verdade que o escritor…

Se é verdade que o escritor, diferentemente do homem público, não costuma receber nesta vida a recompensa do seu trabalho, também é verdade que ele é praticamente imune a tudo quanto destruiria a carreira do segundo. Frequentemente, o que se dá é o contrário, e tomam caráter intrigante aqueles traços da conduta ou da personalidade que, ao homem público, seriam o escândalo certo. Neste sentido, o escritor é privilegiado, e desfruta a vantagem de não ter de falsificar-se para exercer a sua profissão.

É um tanto agoniante correr as páginas…

É um tanto agoniante correr as páginas daquele romancista que, bom escritor, esmerado e sério, não consegue se elevar acima do banal. Oh, infelicidade! Torcemos por ele, ficamos como a querer ajudá-lo, esperançosos de que na página seguinte a narrativa atingirá um nível superior; mas não adianta, nada disso sucede, e enfim nos resta o lamento. Ao menos, lembramo-nos que o grande escritor é grande entre muitos, e precisamente a sua raridade é o que o torna especial.

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista…

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista moderno decorre da consciência de que, em muitos aspectos, o cotidiano atual seria incompreensível para homens do passado. Quando lemos, hoje, histórias de quinhentos, oitocentos anos, compreendemos sem muita dificuldade os afazeres, os costumes, as sociedades de então, ainda que os contrastes sejam evidentes. Plantar, colher, celebrar, navegar, pescar, fermentar, tecer, cavalgar, rezar, construir, casar, pintar, jogar… tudo isso é muito antigo e muito atual, possibilitando cenas inúmeras e livros inteiros cujo sentido jamais se perderá. Já afazeres modernos, como “navegar na internet” ou simplesmente operar um computador, algo em que se faz uma carreira, gasta-se uma vida, certamente não possuem a mesma qualidade atemporal. O romancista, mirando-os, isto é, mirando parte considerável do material de seu tempo, tem de se decidir o quanto os aproveita, e embora saiba que ocultá-los talvez seja falsificar-se, experimenta a impressão de que, se incompreensível aos grandes homens de outros tempos, sua história provavelmente não terá valor.

No Brasil, pior do que notar o desaparecimento…

No Brasil, pior do que notar o desaparecimento de grandes autores em razão de um conluio editorial descarado, é notar o desaparecimento daqueles que, sem qualquer oposição editorial, somem das prateleiras exclusivamente em razão da mesquinharia de seus herdeiros. Isso, sim, é inacreditável, quanto mais num país cujos grandes são poucos, e tendo-se em vista que os herdeiros certamente perdem agarrando-se a semelhante mesquinhez. Causa revolta notar que, morto o autor, sua obra é como reduzida a um produto pecuniário, cuja função é gerar algum dinheiro aos “herdeiros”, quando, em verdade, o dinheiro é mínimo, e os verdadeiros herdeiros ficam privados por lei do legado real. É de chorar!