Olhos que não enxergam…

Acostumei-me, durante muito tempo, a mirar fixamente, quando à janela, o desagradável muro fronteiro à minha casa. Ali está tudo: o vandalismo, a cromática insossa, o medo materializado em cercas cortantes… E eu, obsessivo, seria capaz de representá-lo, à mão, em nível de detalhamento impressionante. Acima, a poluição elétrica; ao fundo, a janela quebrada… Todos os dias reparo, e todos os dias, há anos, encontro a mesmíssima paisagem. E eis que descubro que, alçando a vista, há diferente…

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As letras impedem que a vida seja completamente varrida

As letras cumprem historicamente o papel de impedir que a vida seja completamente varrida da Terra quando a matéria é alcançada pela morte. Obras, registros: por eles algo, e talvez o mais importante, é preservado do ser castigado pelo destino. Penso neste século XXI. Houve, entre muitas outras coisas, um alargamento enorme nas opções de meios para a transmissão de conhecimento e para o registro da existência. A facilidade de acesso e operação destes meios alcançou níveis inimagináveis e, certamente, solucionou problemas. Entretanto, é tarefa que aparenta quase impossível pinçar o que há de valor em meio a toneladas de lixo produzidas e publicadas diariamente. Como filtrar? como identificar e estabelecer um juízo razoável sobre o que vencerá as barreiras do tempo? Parece-me inviável e parece-me, sobretudo, que um número inédito de obras valorosas ficará perdido para sempre.

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O espantoso silêncio em redor de Otto Maria Carpeaux

Quando ladeados o monumento que constitui a obra de Otto Maria Carpeaux e o restante da crítica literária brasileira, é impossível não se espantar de não haver um único estudo biográfico digno do grandioso intelectual que entregou à crítica brasileira sua única obra de valor universal. Silêncio. Penso o que ocorreria caso Carpeaux, em vez de radicar-se no Brasil, optasse pelos Estados Unidos e fizesse, em inglês, o que fez em língua portuguesa. O sorriso é automático… Mas por que o Brasil? Por que, aos quarenta anos, romper com a própria língua e dedicar-se a aprender e escrever num idioma até então desconhecido? E o dificílimo, para não dizer impossível, foi erigido: a estéril crítica literária nacional ganhou um colosso imortal de presente. Que fez dele? Nada, absolutamente nada…

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O desalento de Drummond

Drummond disse, em sua última entrevista, nenhum de seus poemas ter entrado para a história do Brasil, ficando de sua obra apenas alguns “modismos” e “frases feitas”. Enganou-se, posto componha, hoje, o primeiro escalão dos poetas brasileiros de todos os tempos: é impossível uma lista dos melhores poetas ou uma antologia dos melhores poemas que não inclua o grande mineiro. Mas a afirmação, senão extrema modéstia ou percepção falha, escancara o desalento de alguém que, dedicando a vida às letras, não encontrou sequer sinais de recompensa até os seus últimos dias. Para não dizer da técnica, a obra de Drummond evidencia uma profunda compreensão da existência, problemas comuns à toda a humanidade, olhos abertos, atentos, que expressam o próprio espanto em imagens fortíssimas. Em suma: um poeta cuja obra se não resume em enquadrar clichês na técnica poética — qualidade raríssima… E, ainda assim, o insigne Drummond não enxergou retorno após décadas de trabalho, e mesmo após angariar grande reconhecimento a nível nacional. A pergunta: onde é que está o problema? Desta vez, meus dedos pouparão os olhos da querida leitora…

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