Marcha, de Cecília Meireles

Um belo poema de Cecília Meireles:

As ordens da madrugada
romperam por sôbre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idea do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando atôa,
como um número que se arma
e em seguida se esborôa,
— e caír no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saüdade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.

Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de mêdo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

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Um forno gigantesco

O inverno é uma criação literária… Trinta e sete graus Celsius. Dormir é uma impossibilidade, assim como pensar em serenidade, quando a matéria derrama desconforto. Dizem vários dos benefícios de baixas temperatura para as artes do espírito. E poderia ser adicionado: altas temperaturas repelem o pensamento; sendo em essência grande agitação, representam precisamente o contrário da calmaria que incentiva a mente a refletir. Acordar em fadiga, desânimo em razão da péssima noite de sono. Interromper o raciocínio a pensar no incômodo físico. Pior: perceber panos, sapatos, tudo a contribuir para uma sensação intolerável. O ambiente naturalmente abafado, a testa a escorrer. E nada vence, nada interrompe a sensação de habitar um forno gigantesco e indesligável…

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Querem dizer que há poesia sem ritmo…

Um músico, obrigatoriamente, precisa entender de ritmo para compor uma boa música. Para isso, é necessário que ele saiba, ainda que instintivamente, o que é beat e tempo. Só assim será capaz de diferenciar as inúmeras frequências possíveis e os efeitos que poderá alcançar com cada uma delas na sua composição. Querem dizer que há poesia sem ritmo. Há, sem dúvida, versos de péssima qualidade… E ainda que o poeta queira prescindir do elemento mais importante para diferenciar uma composição poética da prosa ou da língua falada, acredito seja impossível negar quanto o conhecimento do ritmo agregaria ao seu arsenal de efeitos expressivos. Pois bem. Para entender de ritmo, na poesia, é forçoso que o poeta compreenda a métrica e, consequentemente, a contagem de sílabas poéticas. Não há outro meio: o poeta que não entende a contagem de sílabas nunca será capaz de entender o que é quantidade e qual a relação que as sílabas tônicas mantêm com as não acentuadas em intervalos regulares. Assim, nunca saberá o que é ritmo e acabará compondo versos que não agradam ao ouvido. Pergunto: será boa a poesia que o ouvido repele?

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Os elementos melódicos e rítmicos tradicionais da poesia

Os elementos melódicos e rítmicos tradicionais da poesia, quando usados com habilidade, concedem uma beleza aos versos que dificilmente os permitem igualados por pares livres. Em algumas dezenas de anos, será possível compará-los com o distanciamento necessário, e não há dúvida que o encantamento produzido pela dupla ritmo e melodia será, em média, muito superior aos novos efeitos alcançados pela poesia moderna. Será possível, também, julgar com sensatez o esmero da técnica, e então ficará evidente que transplantar a música às letras é arte dificílima cuja essência está diretamente ligada à poesia tradicional.

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