É uma lástima que as Confissões, de Santo Agostinho, não tenham feito escola, e o estilo, ou melhor, o tipo de discurso ali empregado não se encontre em praticamente nenhum outro lugar. Esta obra ensina, numa palavra, o que é discursar com sinceridade máxima, algo que não apenas qualquer escritor, mas qualquer homem tem de saber. E, em verdade, é impossível atingir tal extremo senão quando se discursa para um observador sabidamente onisciente, do qual nada se pode esconder e que, para cada palavra dita, sabe outras tantas mais que não se pôde ou não se quis confessar. É uma lástima que tal modelo não tenha feito escola…
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A despeito de tudo quanto se pode…
A despeito de tudo quanto se pode dizer em contrário, a literatura moderna, aproximando-se do cotidiano, algo progrediu. E se às vezes incomoda a banalidade de enredos e personagens, é certo que, nesse cenário corriqueiro, abriram-se possibilidades, e algo de novo se pôde dizer. Se a tradição anterior expandia o imaginário, a nova suscitou maior identificação com o leitor, que agora mais facilmente encontra lances de sua própria vida narrados por outro, porventura aventando possibilidades que não imaginou. Neste sentido, a literatura enriqueceu, e é bom que tenha sido assim.
Muito se pode aprender com a forma…
Muito se pode aprender com a forma com que esses marinheiros, caçadores e demais aventureiros narram as suas experiências. Em resumo, todas essas narrativas consistem no relato da persecução de um objetivo, que vai sendo obstaculizado por circunstâncias diversas. Às vezes, a adversidade é tamanha que o objetivo passa a ser a mera sobrevivência. Mas prossegue a narrativa sempre imbuída de um propósito claro, ao qual tudo o mais se submete. O leitor nunca hesita a respeito da importância relativa dos eventos, e compreende tudo tão claramente que se sente a viver a história. O relato, pois, literariamente logra, apresentando ao leitor uma experiência, uma vida, repleta de sentido.
É interessante constatar como alguns destes livros…
É interessante constatar como alguns destes livros de relatos de aventuras fazem uma literatura superior à maioria dos romances ficcionais. É curioso porque, ao menos teoricamente, um relato atém-se aos fatos, isto é, sai como falto de possibilidades imaginativas. Ainda assim, é frequentemente melhor do que engenhosas construções mentais. Por quê? Decerto, não pela linguagem. Como vantagem, poder-se-ia apontar nele uma verossimilhança garantida: sendo real, mais facilmente convence. Mas quando pensamos mais um pouco, essas minúcias cedem perante o óbvio mais patente: fazer boa literatura é, essencial e simplesmente, contar uma boa história. Se a história é boa, o livro acaba por bom. Se não é boa, é inútil sustentá-la com artifícios. No fim das contas, dá-se o mesmo com os relatos e com a literatura ficcional.