A escrita atinge um novo patamar após adquirir feitio de causa perdida. Como ocorre com estas, o esforço se enobrece e os farsantes renunciam diante da perspectiva infeliz. O trabalho, contudo, ganha inegável autenticidade, a qual se afigura como um prêmio mais valioso do que aquele que inicialmente se poderia esperar. A expectativa frequentemente encurta a vida da dedicação; quando, porém, nada se espera, o próprio esforço acaba se convertendo em fonte de satisfação.
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O desterro, inspirador deste sentimento…
O desterro, inspirador deste sentimento que já motivou algumas das melhores obras literárias de todos os tempos, guarda algo de invencível e inexplicável. A realidade do sentimento não se questiona, mas ocorre que, muitas vezes, o desterro parece oferecer ao desterrado condições muito superiores àquelas vivenciadas na terra natal. Mesmo assim, a mente não se convence, nem abandona a convicção de que antes gozava de algo especial. Parece haver uma ligação que não se rompe, que o tempo só fortalece e que a distância transfigura num dever. Nem todos podem experimentá-lo, mas há de se reconhecer que, quando verdadeiro, é um sentimento muito nobre.
Milagro en los Andes, de Nando Parrado
Lendo este relato, vem à mente o romance de Poe e suas cenas cujo horror parece ter algo de excessivamente absurdo e impossível. São aparências: o horror máximo é possível e real. Tudo neste acidente nos Andes é extraordinário, desde a queda do avião ao resgate dos sobreviventes, mais de dois meses depois. A impressão é que vai acontecendo, seguidamente, aquilo que não poderia acontecer. As expectativas são metodicamente trucidadas, para o bem ou para o mal, e a sensação resultante é de absoluta impotência. Contudo, os sobreviventes agem, desde o início, e continuam a agir mesmo esmagados pela brutalidade das montanhas colossais. Quando já não esperam nada, quando já suportaram uma dose inacreditável de sofrimento e miséria, quando já se veem como cadáveres provisoriamente vivos, deliberam uma tentativa final. E, então, o impossível ocorre mais uma vez. É tudo demasiado impressionante, e forte o suficiente para mudar em definitivo a noção que se faz do viver.
Todo país depende de um punhado de homens…
Todo país depende de um punhado de homens de vasta cultura que, depois de velhos, difundem as descobertas de seus estudos e as percepções de sua vida intelectual. São eles que apresentam autores desconhecidos, colocam novos termos em circulação, recomendam obras a serem traduzidas, norteiam editoras, e por aí vai. A eles cabe a designação de elite intelectual. A longo prazo, somente a sua influência é perceptível. E se sozinhos não definem, sozinhos alteram o horizonte de ideias e autores discutidos em todo um país.