A influência de um autor pode ser medida…

A influência de um autor pode ser medida quando se repara o quanto imitaram suas excentricidades. Salvo Gonçalves Dias, provavelmente nenhum escritor brasileiro jamais viu um índio de verdade. Ainda assim, a literatura indianista virou moda, lançando algumas dezenas de obras ociosas, quase ilegíveis, porque obviamente falsas. Todos esses nomes de plantas, de bichos, de tribos, só se harmonizam com a tradição vernácula portuguesa quando tal harmonia não representa senão a essência íntima do autor. Evidentemente, trata-se de uma excentricidade, que cai bem em Gonçalves Dias porque poderia, ela própria, chamar-se Gonçalves Dias. Quantos, porém, não o notaram! E então, à vista da lindíssima Baía de Guanabara, gastaram o ócio falando de índios que nunca viram! Felizmente, os melhores aprenderam das tentativas falhadas, e um anjo os convenceu de que, para fazer boa arte, basta tomar como matéria-prima aquilo que os olhos conseguem ver.

Ao leitor, nada se iguala aos momentos…

Ao leitor, nada se iguala aos momentos em que parecem sair de si mesmo as linhas que lê. Das variadas sensações que a literatura pode produzir, talvez seja esta a mais especial, uma vez que, dentro ou fora da literatura, são raros os momentos em que se presencia semelhante identificação. E se, na vida, ela produz amizades verdadeiras, na literatura ela dá origem a um laço similar. Dali em diante, partilharão aquelas linhas do grupo das mais estimadas e o autor estará entre os prediletos, ainda que, perante outros, pareça inferior. É pena que, geralmente morto, o autor não poderá desfrutá-lo; mas, se lhe fosse dada a escolha, não há dúvida que trocaria um mar de leitores por uma única conexão assim.

A crítica é por vezes demasiado óbvia

A crítica é por vezes demasiado óbvia, e quando se limita a salientar aquilo que há de seguro, pode passar uma falsa impressão. O exemplo é aquele autor pouco conhecido, preterido por outras figuras de seu tempo, mas em cujas páginas percebe-se claramente o esforço original. Para passar uma imagem justa de sua obra, a crítica tem de destacar esta rara qualidade, que valoriza o todo e é sobressalente perante os defeitos. Nestes casos, se é para dizer algumas poucas palavras, é muito melhor que se limitem àquilo que não é comum.

É uma pena haver no Brasil um número…

É uma pena haver no Brasil um número tão expressivo de poetas talentosos mortos prematuramente. Alguns deles, com mais uma ou duas décadas de vida, certamente produziriam obras valiosíssimas. É o caso de Raul de Leoni. O que salta aos olhos em sua Luz mediterrânea é o esforço sincero por dar expressão àquilo que intimamente mais o comovia, a despeito da moda vigente: uma demonstração da consciência da própria individualidade e de qual caminho deveria seguir com maior proveito. Por isso, sua poesia foi original. Essa noção tão clara da própria posição, que sabe escolher os temas mais adequados e busca desenvolvê-los na forma que julgue justa, ignorando quanto estejam fazendo ou quanto certamente dirão, é uma qualidade difícil de encontrar, o mais das vezes só alcançada após sucessivos erros, e pouquíssimas vezes presente já nas primeiras criações. Sem dúvida, deste poeta sairia uma obra excepcional.