A literatura estaria morta caso se exigisse…

A literatura estaria morta caso se exigisse de seus artistas rigor semelhante ao que se exige de escritores de outras áreas. A coerência, ou melhor, o cogitar uma coerência hipotética é paralisante, é algo que ceifa possibilidades. O artista deve ter liberdade para avançar a despeito de possíveis consequências, focando-se apenas em conferir vida à criação. Pouco importam suas obras precedentes, ou o que porventura pensaria daquilo que agora escreve: a obra tem de ser independente, e condensar em si mesma os motivos de sua concepção.

Cresce-se muito mais quando se alimenta…

Cresce-se muito mais quando se alimenta o respeito, o apreço, o carinho pelas obras legadas pelos autores do passado, em face do impulso oposto de desmerecê-los ou rejeitá-los. Mas talvez seja preciso aguardar que o tempo amplifique o primeiro sentimento, à medida que a mais vasta experiência proporcione mais numerosos pontos de contato, aumentando assim a compreensão e a empatia. A boa idade é aquela que ensina complacência, e a complacência, mais do que a ninguém, beneficia aquele que a possui.

O erro talvez mais frequente…

O erro talvez mais frequente que se vê na crítica literária é tomar a importância histórica como critério qualitativo de um autor. Nada mais falso. O sujeito que publica um soneto, se toma um tiro, já é o poeta assassinado. E daqui se poderiam seguir páginas e páginas que passariam uma enganosa impressão de grandeza. Enquanto isso, lá está o outro, obscuro, sem contatos, do qual pouco se sabe, cuja biografia talvez não tenha brilho, e nem a obra novidades, inexplorado pela crítica, sem influência, mas que fez realidade, com todo o espírito e plena sinceridade, o melhor de sua vocação.

É preciso algum esforço para vencer…

É preciso algum esforço para romper a superfície e apreciar a profundidade da motivação artística de Teixeira de Pascoaes. Superficialmente, as palavras são sempre palavras, e a poesia não passa de idealização. Mas se nos perguntarmos: “Que está por trás das palavras? que tipo de experiência as motivou?” — com algum esforço, algo se nos revela, e este algo, em Teixeira de Pascoaes, é bonito e sincero. Mas é algo difícil de ser experimentado, visto que o egoísmo trabalha continuamente para destruí-lo. Conectar o passado ao presente e, sobretudo, mirá-lo, ele e a existência inteira, com olhos benévolos, é algo que somente um grande espírito se habilita a fazer.