Traduzi, ao inglês, dezenas de contos neste último ano. E, ao contrário do que imaginava, diverti-me no demorado trabalho, ainda que me deparando o tempo inteiro com a insuficiência da tradução. Curioso foi rir-me durante o processo, algo que contrasta fortemente com meu estado de humor ao parir aqueles textos. Lembro-me bem… Após imergir-me na criação, o sentimento que predominava era outro. Há algo indescritível que se experimenta ao parir uma obra, enquanto se enfrenta as dificuldades do trabalho. Agora, tudo aquilo passou. Posso recordá-lo e revivê-lo com um distanciamento sereno, e rir-me do resultado de tão intensa aflição.
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A facilidade com que um autor aborda…
A facilidade com que um autor aborda os seus temas preferidos esconde o quão perigoso pode ser imitá-lo. Lendo-o, parece tudo muito simples. Mas é simples porque a abordagem nasce de uma inclinação autêntica, e esta não é imitável. Para descobri-lo, porém, às vezes é preciso experimentar. E disso não escapam nem os melhores. Um belo exemplo são as Americanas de Machado de Assis. Certamente, a um amigo que pudesse ver-lhe interiormente, enxergar-lhe as obras futuras e o potencial criador, bastariam meia dúzia de versos para que viesse a recomendação jocosa: “Ora, meu bom Joaquim! Largue essa coisa de Anhangá e tacape! Você nem sabe o que é isso”. E, decerto, não haveria melhor conselho: o autor daqueles versos não era Machado de Assis. O duro é que, na prática, só é possível dizê-lo porque Machado, sozinho, percorreu a trilha das falhas para se descobrir e se nos revelar.
A influência de um autor pode ser medida…
A influência de um autor pode ser medida quando se repara o quanto imitaram suas excentricidades. Salvo Gonçalves Dias, provavelmente nenhum escritor brasileiro jamais viu um índio de verdade. Ainda assim, a literatura indianista virou moda, lançando algumas dezenas de obras ociosas, quase ilegíveis, porque obviamente falsas. Todos esses nomes de plantas, de bichos, de tribos, só se harmonizam com a tradição vernácula portuguesa quando tal harmonia não representa senão a essência íntima do autor. Evidentemente, trata-se de uma excentricidade, que cai bem em Gonçalves Dias porque poderia, ela própria, chamar-se Gonçalves Dias. Quantos, porém, não o notaram! E então, à vista da lindíssima Baía de Guanabara, gastaram o ócio falando de índios que nunca viram! Felizmente, os melhores aprenderam das tentativas falhadas, e um anjo os convenceu de que, para fazer boa arte, basta tomar como matéria-prima aquilo que os olhos conseguem ver.
Ao leitor, nada se iguala aos momentos…
Ao leitor, nada se iguala aos momentos em que parecem sair de si mesmo as linhas que lê. Das variadas sensações que a literatura pode produzir, talvez seja esta a mais especial, uma vez que, dentro ou fora da literatura, são raros os momentos em que se presencia semelhante identificação. E se, na vida, ela produz amizades verdadeiras, na literatura ela dá origem a um laço similar. Dali em diante, partilharão aquelas linhas do grupo das mais estimadas e o autor estará entre os prediletos, ainda que, perante outros, pareça inferior. É pena que, geralmente morto, o autor não poderá desfrutá-lo; mas, se lhe fosse dada a escolha, não há dúvida que trocaria um mar de leitores por uma única conexão assim.