A crítica é por vezes demasiado óbvia, e quando se limita a salientar aquilo que há de seguro, pode passar uma falsa impressão. O exemplo é aquele autor pouco conhecido, preterido por outras figuras de seu tempo, mas em cujas páginas percebe-se claramente o esforço original. Para passar uma imagem justa de sua obra, a crítica tem de destacar esta rara qualidade, que valoriza o todo e é sobressalente perante os defeitos. Nestes casos, se é para dizer algumas poucas palavras, é muito melhor que se limitem àquilo que não é comum.
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É uma pena haver no Brasil um número…
É uma pena haver no Brasil um número tão expressivo de poetas talentosos mortos prematuramente. Alguns deles, com mais uma ou duas décadas de vida, certamente produziriam obras valiosíssimas. É o caso de Raul de Leoni. O que salta aos olhos em sua Luz mediterrânea é o esforço sincero por dar expressão àquilo que intimamente mais o comovia, a despeito da moda vigente: uma demonstração da consciência da própria individualidade e de qual caminho deveria seguir com maior proveito. Por isso, sua poesia foi original. Essa noção tão clara da própria posição, que sabe escolher os temas mais adequados e busca desenvolvê-los na forma que julgue justa, ignorando quanto estejam fazendo ou quanto certamente dirão, é uma qualidade difícil de encontrar, o mais das vezes só alcançada após sucessivos erros, e pouquíssimas vezes presente já nas primeiras criações. Sem dúvida, deste poeta sairia uma obra excepcional.
Nunca errará o escritor que se concentrar…
Nunca errará o escritor que se concentrar naqueles temas propriamente seus, ainda que deixe de lado outros tantos que poderiam tornar-lhe a obra mais abrangente. Por essa abrangência, às vezes paga-se o preço da dispersão. E como são notórios os trechos em que o escritor se manifesta com toda a intensidade de que é capaz, faz bem que neles se concentre, que em torno deles construa o que tiver de construir. Trabalhando desta maneira, mesmo os excessos passarão diminuídos pela sinceridade que naturalmente abundará numa obra que, conscientemente, alvejou o essencial.
Não parece nem um pouco razoável que…
Não parece nem um pouco razoável que, morto o autor, sob a justificativa de lhe resguardar os “direitos” dos herdeiros, sua obra fique quase inacessível por setenta anos, até que, enfim, caia no chamado domínio público. Certamente, não parece ser do interesse do autor que sua produção seja tutelada pelos caprichos daqueles que só a enxergam como meio de ganhar alguns trocados, e que fazem quase sempre com que ela caia em esquecimento justamente quando poderia ganhar maior repercussão, isto é, nos anos imediatos à morte. Repetidamente, o que se vê são “herdeiros” optando pelo melhor negócio, quer dizer, dando exclusividade a uma editora meia-boca para imprimir as obras num papel vagabundo, com edição péssima e lucro maior. Porém, não é raro que a editora também dificulte a distribuição, o que resulta em menos vendas e lucro menor. Tudo isso é muito mesquinho, e chega a ser incompreensível como foi possível tornar-se normal, especialmente aos “herdeiros”, usar o autor em vez de homenageá-lo, prejudicá-lo em vez de promovê-lo…