Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas, elas se tornam interessantes mesmo para aquele que as despreza. Isso porque Nabokov, para além de ser um exímio escritor, quando discorre sobre borboletas, discorre sobre algo que o absorve, discorre entusiasticamente, fazendo com que ao menos parte deste grande entusiasmo se irradie para o leitor. Com tal exemplo, fica fácil perceber que a literatura possibilita leituras improváveis, imprevistas, até impossíveis, desde que o autor seja autêntico, e trate de assuntos que realmente o interessam — agindo como um anfitrião que, num ato de boa-fé, expõe ao visitante aquilo que de mais valioso julga possuir. Talvez o efeito mais evidente de um grande escritor seja justamente este: ele estimula, ainda que à força, o interesse no leitor.
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“Sou filósofo; faço filosofia”
“Sou filósofo; faço filosofia” — diz o construtor de castelos imaginários, tal como diz aquele que brinca de criar, ordenar e adulterar palavras: “Sou escritor; faço literatura”. E embora ambos, talvez, sintam-se justificados pelo atributo que o ofício lhes confere, a verdade é que nada daquilo que produzem possui sentido existencial. Notá-lo parece bobagem, mas os anos passam e a vida pressiona por uma verdadeira justificação. O filósofo, o escritor, não podem encontrá-la no passado, por terem-no dedicado a motivações exteriores, descoladas de si. Então se arrependem; porventura ainda com tempo para redimi-lo, mas já tendo deixado a influência e o exemplo prejudiciais.
Se fosse estabelecida uma escala com os níveis…
Se fosse estabelecida uma escala com os níveis de compreensão literária, ou de inteligência linguística, seguramente haveria um nível que a maioria das pessoas razoavelmente inteligentes, com alto QI e boa capacidade argumentativa, não alcançariam, e é o nível que capacita a identificar uma expressão concebida esteticamente, uma expressão que se justifica pelo efeito que produz. Realmente, quantos o não alcançam! A maioria dos “inteligentes” se recusa a não se aferrar ao sentido das frases, e portanto parecem desconhecer haver mais do que a semântica, a lógica e as figuras de linguagem mais óbvias. São aqueles incapazes de apreciar um autor como Cioran, ou como Nietzsche, ou até certos trechos de Pessoa, porque “não concordam” com aquilo que leem. O curioso é que, embora seja instintivo taxá-los de imaturos, tal nível de compreensão parece realmente difícil de ser alcançado por aqueles que não exercem o ofício de escrever. Exercendo-o, tudo se torna muito simples: basta propor-se, ainda que por brincadeira, talhar algumas frases impactantes; e então ficará evidente que o exagero, e mesmo a adulteração do pensamento, às vezes, produzem um resultado muito superior.
Embora o trabalho dos críticos seja de grande…
Embora o trabalho dos críticos seja de grande serventia ao estudante, que tem de definir uma rota de estudos, e tem de encontrar uma maneira de selecionar, desconhecendo-as, as obras que mais lhe convêm, é sem dúvida melhor entrar numa obra ignorando-se o que dela disseram, e deixar que ela cause, numa relação travada entre autor e leitor, a sua impressão. Depois, a crítica, que será melhor compreendida, e talvez estimulará leitura adicional. Ocorre, porém, que não é possível, e nem conveniente fazê-lo sempre, uma vez que, antes de tudo, é preciso definir o que ler. Então é preciso lidar com a sensação desagradável de, durante a leitura, pedir que se afastem da mente os julgamentos já conhecidos que ficarão insistindo em aparecer.