É compreensível o grande interesse, e até nobre interesse dos críticos na literatura contemporânea. Há casos em que, sem eles, o público não tomaria conhecimento, ou não saberia estimar ótimos autores. Também é compreensível, e sob muitos aspectos benéfico quando o crítico consegue estabelecer laços pessoais com um ou vários autores. Porém, talvez não haja mais evidente armadilha a ser colocada em seu caminho, e destas capazes de arruinar a longevidade de sua obra. É chocante observar como, às vezes, podem coexistir na cabeça do crítico um senso histórico apuradíssimo e o mais completo descompasso quando se trata da literatura atual. Isso se percebe, é claro, quando o atual envelhece, escancarando o quanto dele o crítico deixou-se contaminar. Nestes casos, a coragem e a probidade de emitir um juízo sempre sincero pouco fazem para atenuar o problema: tudo parece incoerente quando se tem como norte um desajustado senso de proporções.
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Só com bocejos se pode responder a velha teoria…
Só com bocejos se pode responder a velha teoria, revivida de tempos em tempos em nova roupagem, segundo a qual a grande arte é aquela que se limita a retratar a realidade com exatidão. Fosse isso, bastaria que conservasse a fidelidade, e seria grande a arte que retratasse a cena mais estúpida, repulsiva, banal ou desinteressante. Em verdade, é o efeito contrário que alcança caso se detenha minuciosamente em algo que deveria desprezar. Para confirmá-lo, basta imaginar o ridículo que seria uma peça musical na qual o compositor se esforçasse por replicar com perfeição alguns “sons da natureza”. Só é grande a arte que, valendo-se do meio que for, eleva aquele que com ela entra em contato, ou pelo menos guarda tal possibilidade; o resto é tolice.
O fato de que, no ocidente, o contato…
O fato de que, no ocidente, o contato com estas Mil e uma noites se dê quase sempre através de adaptações infantis nas mais variadas formas esconde um pouco a importância literária desta obra, que transcendeu todas as barreiras imagináveis e impregnou-se na cultura popular. Pouquíssimos chegam a lê-la integralmente, a despeito de sua influência se ver sugerida com frequência. A verdade é que, tal como a mitologia grega, esta obra tornou-se obrigatória ao estudante da literatura. Ainda que o valor das histórias fosse nulo, conhecê-las é testemunhar a força de uma narrativa, que pode atravessar o tempo e as barreiras culturais como se fossem nada, transformando-se em patrimônio humano comum. Não é preciso dizer mais.
Na personalidade de um escritor…
Não há como negar: na personalidade de um escritor, o excêntrico é o mais cativante. Fernando Pessoa é-nos muito mais simpático graças à estúpida empreitada editorial que lhe queimou a herança; Dostoiévski, idem, por ter acreditado no potencial de sua mirabolante estratégia diante da roleta; Cioran, o filósofo, jamais seria o mesmo se não sofresse ataques de nervos comprando ovos. E por aí vai… Mas é muito raro ver nos escritores a consciência de que serão personagens da própria biografia, e que portanto é no excêntrico que se deveriam concentrar. Em benefício da biografia, deveriam seguir o conselho dado por Cioran nestas linhas maravilhosas:
22 juin
Suis allé au marché. Pour quatre œufs, j’ai attendu une demi-heure. Crise de nerfs, fureur, ces femmes bavardes me mettent hors de moi. J’ai attendu uniquement pour me démontrer à moi-même que j’étais maître de mes nerfs, que je pouvais me contenir, et j’ai supporté effectivement toutes ces bonnes femmes sans hurler. Mais après, j’ai failli hurler.C’est toujours la même histoire: tout effort que nous faisons sur nous-même se retourne contre nous ou nous nous retournons contre lui. La santé, c’est donner libre cours à ses humeurs, c’est être ce qu’on est.
Se não a saúde, ao menos a complacência com os leitores futuros.