Se algo é publicado, será lido: é esta uma realidade inevitável. Mas é bom pensar que tal nunca ocorrerá, pois assim se pode criar com tranquilidade e independência. Há algo de belo e solene neste silêncio que acompanha a criação e, o mais das vezes, a recepção de uma obra. É um silêncio ilusório, mas extremamente estimulante, e se fez presente na maior parte das grandes obras já concebidas. Se pensar no natural rompimento deste encanto, o artista julgará melhor jamais publicar nada, e por isso não deve fazê-lo: deve permitir-se iludir, e aproveitar a calmaria como se fosse garantida e eterna.
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A grande arte brota de uma motivação não artística
A grande arte brota de uma motivação não artística; grande arte é o que se torna após modelada pelo artista. Fazer arte por fazê-la não pode senão gerar arte menor, e os exemplos são tão abundantes que é correto afirmar que a arte superior sempre será, em maior ou menor medida, autobiográfica. Não é preciso que se conheça a biografia de Shakespeare para conhecê-lo, visto que sua obra prova-nos de quais questões sua mente se ocupou enquanto viva. Shakespeare não seria quem é caso tirasse-lhe as peças do efeito artístico que tencionava produzir; assim como Dostoiévski jamais teria a mesma vitalidade se escrevesse romances a partir de “motivos artísticos”. A arte é a forma que se dá a uma motivação que não exige um artista para se manifestar — nem para a compreender.
Doutor Fausto, de Thomas Mann
O principal problema desta obra é a expectativa: trata-se do romance de um autor que, vinte anos antes, publicou A montanha mágica. Esperamos, então, que se reflitam estas duas décadas em amadurecimento e altitudes superiores — algo que não acontece, parecendo Mann, ao contrário, ter descido da montanha. Doutor Fausto é um belíssimo exemplo dos defeitos autenticamente alemães: é uma obra de quase cinquenta capítulos que seria muito melhor e mais potente se resumida em três. Seu ápice consiste na invocação do diabo, um personagem que, por si só, é sempre interessante. Se a obra se resumisse a este momento e suas consequências, talvez teríamos uma impressão diferente; mas Mann faz questão de nos entediar com algumas centenas de páginas ociosas. Que dizer? Carpeaux comparou esta obra ao Jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, dizendo terem ambos os autores se refugiado na música. Mas oh, quanta diferença! Parece impossível compará-las sem que Doutor Fausto saia completamente humilhado: é esta uma obra desprovida de elevação, que ostenta uma minuciosidade medíocre, como escrita pelo burguês que se entretém exibindo conhecimentos inúteis e escreve por hobby. Que decepção! Parece inevitável imaginar Mann, em suas mansões luxuosas, tomado de um tédio semelhante ao dos velhos indianos, incapaz de perceber-se esmorecendo quanto mais se permitia “refugiar”. Dói vê-lo neste grande escritor…
O tecnicismo, em literatura, é tragável somente…
É verdade que, ao abordar qualquer tema, o escritor poderá torná-lo interessante dando-lhe profundidade ou, melhor dizendo, mostrando-se como um especialista no assunto. Porém, há um limite que, se ultrapassado, torna o texto maçante a um nível insuportável. O tecnicismo, em literatura, é tragável somente enquanto reforça a peculiaridade da expressão que dele independe; o mais das vezes o que faz é tornar as linhas insípidas para o desconhecedor da área abordada. Lamentavelmente, é um erro difícil de evitar para aquele que dedicou-se com afinco a determinado tema e decide dramatizá-lo. Mas é bom ter em mente que não se produz grande literatura para especialistas porque, afinal de contas, dificilmente chamamos de especialista aquele que o é no essencial.