Considero uma manifestação real de Deus em minha vida o ter-me livrado de centenas de páginas de interpretação da vida de Pessoa “through a Freudian lens”, martírio ao qual eu fatalmente me submeteria para conhecer um pouco mais da vida do poeta. Então tomo conhecimento da existência deste tijolo de mil páginas, de autoria de Richard Zenith e publicado recentemente, que já nas primeiras linhas aponta as conclusões do biógrafo freudiano João Gaspar Simões. Segundo este, “nostalgia for lost childhood and the pure happiness it represented is the key to understanding the man and his work”. Que vergonha destes discípulos de Freud! Que vergonha! E o incrível é não ruborizarem ao despejar tais conclusões assustadoramente rasas e previsíveis. Há, para o discípulo de Freud, duas únicas causas para toda manifestação humana: a infância e o desejo. Nada além disso é possível, e tudo pode por elas ser infalivelmente justificado. Assim que um homem que manifeste na vida a vocação religiosa, obviamente, seja o monge ou o santo que for, fá-lo pela frustração de não ser capaz de se relacionar com mulheres, ou pela sexualidade mal resolvida. Já um artista tem de celebrar-se pela devassidão, faz arte pela necessidade de expressar traumas infantis não superados. Em todo senhor de cabeça branca há, naturalmente, um pervertido interior que lhe constitui a essência… Que vergonha! que vergonha! É espantoso notar a pobreza da psicanálise! E obrigado, Deus, muito obrigado por livrar-me dos insultos que teria de confrontar em razão do apreço que tenho pelo enorme português…
Tag: literatura
A trajetória intelectual de Hermann Hesse
A trajetória intelectual de Hermann Hesse é admirável. Os “escritos póstumos de Joseph Knecht”, mormente “As três vidas”, são como uma síntese de uma vida inteira dedicada ao estudo, de uma longa imersão nas mais altas filosofias do oriente e do ocidente; uma síntese das grandes religiões e das grandes compreensões da realidade, partindo dos elementos mais simples aos mais complexos, da moral prática às abstrações do pensamento. E ver tais linhas provenientes do autor de Demian… Não foram poucos os que tentaram harmonizar o oriente e o ocidente no último século; mas pouquíssimos o fizeram com a beleza alcançada por Hesse.
O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse
Este belíssimo romance é uma admirável tentativa de sintetizar quanto há de mais alto e mais nobre na existência humana. Se analisamo-lo com cautela, vemos que a virtuosidade, em suas múltiplas faces, foi cuidadosamente distribuída pelas personagens e pelo enredo do romance. Dificílima tarefa! e por isso digna do maior apreço. Estruturalmente, a obra é interessante por fornecer-nos lances assaz previsíveis e deixar algumas lacunas na história. Tal nos faz refletir sobre a necessidade da surpresa quando há um todo harmonioso a expressar uma mensagem profunda e potente. Numa narrativa inteiramente impregnada desta harmonia, quanto se ganha surpreendendo? Notamos, na obra, o honroso esforço por dar voz ao inefável, por expressar-se pela singeleza e complexidade do silêncio, da música, do céu estrelado, como se tais elementos não carecessem além da própria presença para dizer-nos o que têm a dizer. A vida de Joseph Knecht encerra-se numa cena de simbolismo inesquecível: cada detalhe contribui para a mensagem central da obra. A beleza radiante da paisagem, os contrastes entre juventude e velhice, instinto e racionalidade, saúde e doença, o ato simultaneamente humilde e corajoso do erudito que desafia e permite-se engolido pela natureza, tudo isso, tomado em conjunto, parece tangenciar a complexidade da vida. Por algum motivo, brota-nos a imagem de Hermann Hesse voando alto, muito alto, nos mesmos anos em que um exército de autores atiravam a literatura na depravação…
Não há como não se deixar tocar pela nobreza…
Não há como não se deixar tocar pela nobreza, pela beleza de uma educação conduzida por um homem probo e talentoso, posto que resultados maravilhosos se lhe podem derivar. Tal é, contudo, de tamanha raridade, que aqueles que se deparam com um exemplo real não podem senão perder-se em idealizações sobre como tudo seria melhor caso todos tivessem oportunidades idênticas à de alguns seletos iluminados. E então confrontá-lo com o mundo real… mas que fiquem para outro dia os lamentos: merecem o mais alto reconhecimento aqueles que honram essa nobre vocação.