Não há como não se divertir com uma boa história…

Não há como não se divertir com uma boa história de pescador, ainda que não se acredite em uma palavra dela. Mas, aqui, as peripécias, os exageros, e mesmo os absurdos provocam o riso, e não a aversão. Por quê? É interessante notar que existe esse tipo de mentira que diverte, que estimula e que gera um sentimento positivo no interlocutor. E ela abre espaço para todo um gênero literário em que a criatividade é livre para se manifestar. A história, quanto mais engenhosa e inverossímil, às vezes mais facilmente se grava na memória, e mais aumenta o mérito de seu autor. Talvez, o mistério deste fenômeno não seja de todo um mistério: nele, a mentira só funciona porque fundada na pureza de intenção.

Em tese, Meetings with remarkable men…

Em tese, Meetings with remarkable men, de George Gurdjieff, foi concebido com “objetivos semelhantes” aos da Autobiografia de um iogue, de Paramahansa Yogananda. Mas só mesmo entre aspas se pode dizê-lo, porque a discrepância entre as obras é tão gritante, que não seria exagero tê-las como modelos, uma da verdade, e outra da falsificação. Uma delas é deveras instrutiva, apresenta homens verdadeiramente notáveis e atinge, pois, o seu “objetivo”; já a outra se resume a uma sucessão de relatos cujo propósito não é senão inflar o ego de um autor que, sempre que parece estar prestes a dizer algo importante, astuciosamente afirma que apenas o dirá num volume ainda a ser publicado e que você, leitor, terá de comprar. Mas, sobretudo, o que ambas as obras escancaram é um contraste entre personalidades se não opostas, absolutamente distintas. As qualidades que transparecem em Yogananda faltam por completo em Gurdjieff: o primeiro inspira respeito e admiração, enquanto o último somente antipatia.

Após a leitura deste Meetings with remarkable men…

Impressiona notar que, após a leitura deste Meetings with remarkable men, no qual George Gurdjieff relata ora com indiferença, ora jactantemente, as inumeráveis vezes em que se aproveitou da inocência alheia, manipulou, mentiu e ludibriou, ainda haja quem queira tê-lo como mestre espiritual! Vem à mente aquele dito carioca (seguramente é carioca): “Todo dia saem de casa um malandro e um otário…”. Gurdjieff é desses que cheira à mentira, e um conhecedor deste tipo de natureza nota com facilidade que alguns de seus relatos, se não inventados, são entremeados de exageros e falsificações que visam unicamente impressionar. Que coisa! “Personalidade magnética”, “guia místico”, “mestre espiritual”… Por estas histórias que não deveriam ser contadas fora de um confessionário, Gurdjieff demonstra se credenciar tão somente a picareta profissional.

Às vezes, mesmo um renomado picareta…

Às vezes, mesmo um renomado picareta, mesmo um ideólogo de quinta categoria, mentiroso e mal-intencionado, pode dar à luz páginas muito interessantes quando descreve suas experiências pessoais. A menos que também as falsifique, conseguirá experimentar na escrita exatamente aquilo que experimenta o grande escritor. E convencerá. Há nisto algo de especial: a escrita oferece a todos, sem distinção, idênticas possibilidades — e para bem aproveitá-las, basta tratar com seriedade o ato de escrever.