Não há uma única notícia de jornal…

Não há uma única notícia de jornal que mereça ser impressa e guardada para o futuro, como se faz com toda a literatura de valor. Logo, como é possível que tantos leiam, e tantos se convençam da falsa importância atribuída aos jornais? O jornalismo nunca aproxima o leitor de nenhuma questão verdadeiramente importante. O que faz é afastá-lo de sua individualidade e metê-lo em questões absolutamente fora de seu campo de ação, que não interferem em sua vida, e quando interferem, é o tipo de interferência contra a qual nada se pode fazer. Uma contribuição prática, portanto, nula; para não dizer que, o mais das vezes, o jornalismo não inspira senão sentimentos ruins. O melhor é sempre desprezá-lo. E, dependendo dele para o próprio sustento, é largá-lo e buscar outra profissão. À parte isso, existe o bom jornalista. Mas o bom jornalista é um homem doente que não consegue largar o jornalismo porque padece de tê-lo como vocação.

A escrita atinge um novo patamar…

A escrita atinge um novo patamar após adquirir feitio de causa perdida. Como ocorre com estas, o esforço se enobrece e os farsantes renunciam diante da perspectiva infeliz. O trabalho, contudo, ganha inegável autenticidade, a qual se afigura como um prêmio mais valioso do que aquele que inicialmente se poderia esperar. A expectativa frequentemente encurta a vida da dedicação; quando, porém, nada se espera, o próprio esforço acaba se convertendo em fonte de satisfação.

O desterro, inspirador deste sentimento…

O desterro, inspirador deste sentimento que já motivou algumas das melhores obras literárias de todos os tempos, guarda algo de invencível e inexplicável. A realidade do sentimento não se questiona, mas ocorre que, muitas vezes, o desterro parece oferecer ao desterrado condições muito superiores àquelas vivenciadas na terra natal. Mesmo assim, a mente não se convence, nem abandona a convicção de que antes gozava de algo especial. Parece haver uma ligação que não se rompe, que o tempo só fortalece e que a distância transfigura num dever. Nem todos podem experimentá-lo, mas há de se reconhecer que, quando verdadeiro, é um sentimento muito nobre.

Milagro en los Andes, de Nando Parrado

Lendo este relato, vem à mente o romance de Poe e suas cenas cujo horror parece ter algo de excessivamente absurdo e impossível. São aparências: o horror máximo é possível e real. Tudo neste acidente nos Andes é extraordinário, desde a queda do avião ao resgate dos sobreviventes, mais de dois meses depois. A impressão é que vai acontecendo, seguidamente, aquilo que não poderia acontecer. As expectativas são metodicamente trucidadas, para o bem ou para o mal, e a sensação resultante é de absoluta impotência. Contudo, os sobreviventes agem, desde o início, e continuam a agir mesmo esmagados pela brutalidade das montanhas colossais. Quando já não esperam nada, quando já suportaram uma dose inacreditável de sofrimento e miséria, quando já se veem como cadáveres provisoriamente vivos, deliberam uma tentativa final. E, então, o impossível ocorre mais uma vez. É tudo demasiado impressionante, e forte o suficiente para mudar em definitivo a noção que se faz do viver.