A ideia da Universidade e as ideias das classes médias

O quadro pintado por Carpeaux no ensaio A ideia da Universidade e as ideias das classes médias é de uma atualidade impressionante. O cenário, aliás, não fez senão se agravar. O “regredir de uma elite à condição de massa ornada de títulos acadêmicos” é um fenômeno consumado no ocidente. Muito em razão desta tendência às especializações, necessárias e destrutivas, que empurraram para o limbo a alta cultura e cercearam as possibilidades para o indivíduo comum que, logo em tomando conhecimento de si mesmo, vê-se o mais das vezes esmagado pelo império da necessidade, que hoje abocanha-lhe uma parte tão grande da vida que pareceria absurda em tempos passados para alguém dito “livre”. As universidades, consoante à tendência hodierna, ensinam profissões e possibilitam carreiras: é o que pede o mercado. A formação cultural já não faz parte do escopo dos cursos e, assim, o aluno deixa hoje o ensino médio semianalfabeto para passar o resto da vida sem escutar uma única palavra sobre história ou literatura. Crescem as universidades, uma massa enorme gradua-se, especializa-se, coleciona títulos acadêmicos e angaria prestígio, dinheiro, reconhecimento; “mas, em geral, estas massas graduadas se distinguem dos iletrados somente por uma autoridade profissional que as torna menos úteis que perigosas”. É um desastre.

O Goethe de Eckermann

Vou deixando que fale o Goethe de Eckermann enquanto a mente é-me tomada por um turbilhão de comentários de Nietzsche, Jung e Cioran. E oscilo enquanto Goethe discorre sobre a arte e mil outros assuntos, ora apreciando-lhe as palavras, ora experimentando um completo estranhamento. Um espírito complexo e admirável, sem dúvida. Mas um espírito de quem julgo-me afastado, por inclinações e pela própria concepção da poesia, do poeta e da arte. A grandeza de Goethe, como artista e como homem, é inquestionável. Porém, seria possível ajuntar aqui um caminhão de ressalvas, que são felizmente escusadas por já estarem presentes na obra de Jung.

 

Conversações com Goethe, de Eckermann

Essa modéstia literária, forçada, cheia de pompa, tão ao gosto dos caçadores de elogios, nada tem de modéstia e mais parece vaidade. A virtude, se autêntica, é espontânea. A humildade simulada agrada tanto quanto uma nota falsa. Dito isso, é notável a simpatia que a verdadeira modéstia pode inspirar. É o que ocorre nestas admiráveis Conversações com Goethe, de Eckermann. Desde o princípio, o autor se nos apresenta com uma simplicidade absolutamente despretensiosa. Narra-lhe, sucintamente e sem dramatizar, as próprias origens, e conduz a obra com uma sinceridade digna do maior apreço. É de se lamentar que, ainda assim, tenha sido alvejado por ironias. Mas é inevitável que a verdadeira virtude seja invejada por aqueles que a não possuem. Eckermann é humilde, simplesmente humilde, e suas linhas agradam, sobretudo, pela naturalidade com que apresentam temas elevados. Pela forma e pelo conteúdo, é uma obra merecedora dos mais sinceros elogios.

O artista bon-vivant

Diz Burckhardt, em minha tradução inglesa:

Indeed, without this degree of force of character, the man of the most brilliant “talent” is either a fool or a knave. All great masters have, first and foremost, learned, and never ceased to learn, and to learn requires very great resolution when a man has once reached heights of greatness and can create easily and brilliantly. Further, every later stage is achieved only by a terrible struggle with the fresh tasks they set themselves.

“Force of character”, “never ceased to learn”, “terrible struggle”… aí está uma visão sensata do estado de espírito que produz grandes obras. É realmente uma piada essa visão romantizada do artista bon-vivant, tão disseminada nestes dias. Segundo ela, o exercício da arte é um prazer, um divertimento para os momentos de ócio. Um artista desta estirpe é, se muito, medíocre. Diante da postura de um artista sério, mesmo a tão falada “busca pela beleza” parece de uma futilidade afrontosa. Toda essa idealização do artista e da arte não parece definir muito bem a motivação real daquele que dedica um esforço descomunal, que molda a existência inteira em torno da própria ocupação, nunca relaxando, nunca satisfeito, na contramão daquilo que lhe é conveniente. Burckhardt, como poucos, apresenta-nos uma visão prudente daquilo que representa a verdadeira grandeza.