É curioso notar que o fenômeno óbvio de acentuação secundária em palavras polissílabas não tenha entrado na cabeça de Castilho; mas impressiona ainda mais que, anos depois, o mesmo fenômeno tenha sido negado expressamente por poetas como Bilac e Guimarães Passos. A dizer a verdade, Castilho, um grande metrificador, não era perito em ritmo, tendo esta palavra aparecido uma única vez em todo o seu tratado de metrificação. E Bilac e Guimarães Passos, apesar da bela obra conjunta, limitaram-se a republicar a teoria de Castilho no Brasil. Cabe a Said Ali o mérito de ter sido o primeiro a refutar Castilho e dizer o óbvio: a pronúncia portuguesa natural exige um acento secundário em tais palavras, porque a língua repele três átonas em sequência desprovidas de apoio tônico. Em português, a acentuação real não segue um padrão binário, mas gradações, como argutamente notou Said Ali. O gramático se contenta identificando o acento dominante da palavra, mas o poeta não pode fazê-lo. O poeta tem de perscrutar, primeiro, as sutilezas do idioma e, segundo, o discurso falado. E precisa lembrar-se sempre que gramáticas são diretrizes, que periodicamente se atualizam e são de praxe desrespeitadas pela língua real.
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Há muitas vantagens em se publicar voluminhos…
Há muitas vantagens em se publicar voluminhos com regularidade em vez de deixar a obra crescer indefinidamente. A primeira delas é a distribuição mais tolerável do trabalho de revisão. Outra delas e, talvez, a principal, é que não se sabe quando chegará a morte, e é bom evitar o risco de ter publicados trechos que jamais passariam pela mais falha e desatenta revisão, como se vê aos montes nos Diários de Kafka. Que ironia! Kafka, que adorava taxar de mau e queimar o que escrevia, teve publicada integralmente, com erros óbvios e muitas linhas ociosas, uma obra que provavelmente atiraria à fogueira. Sem dúvida, é algo que poderia ter sido evitado.
O “quartel-general do barulho”
Kafka, em seus Diários, nomeia atrevidamente o seu quarto como um “quartel-general do barulho”. Reclama de portas batendo, do tropear de passos apressados, de roupões a se arrastar, da raspagem de cinzas, de gritos… Oh, meu caro sr. Kafka! foi Deus quem te livrou da música sertaneja, dos xingamentos ensandecidos a juízes, zagueiros e laterais! Nunca soubeste o que é interromper uma composição com murros na parede, saltos pesadíssimos de um elefante logo acima do teu teto! Ler ao som insuportável da bateria de uma banda evangélica, decorando os cantos do culto em vez de compreender as linhas que se lê! Agradece, meu caro! Viveste quando ainda não havia esta porcaria de telefone móvel, quando igrejas não possuíam microfones, amplificadores, e não se instalavam a cada esquina, especialmente na tua, por quantas vezes mudasses de endereço!…
Vigny e eu
Muito do que Vigny diz de si mesmo eu poderia atribuir a mim sem alterar uma vírgula. Tenho, como Vigny, esse “besoin éternel
d’organisation”, sem o qual não me movo; sou, como ele, “seul”, “exempt de tout fanatisme”; também a mim a vida cuidou dotar-me desta “sévérité froide et un peu sombre” que não é inata; quanto ao método criativo, identicamente concebo, planejo, moldo e deixo esfriar antes da execução final; poderia também dizer com toda a minha alma que “l’indépendance fut toujours mon désir”; compartilho, ainda, a repugnância de Vigny às futilidades, fruto de alguém que, estando “toujours en conversation avec moi-même”, encontra no estorvo das interrupções sempre motivo para frustrações… e a lista poderia continuar. Vigny, contudo, faz a nota: “Aimer, inventer, admirer, voilà ma vie”. Ah, Monsieur! Lamentavelmente, estas vossas palavras já não posso subscrever… Não faz mal: Deus me deu o senso de humor.