A criação de amigos imaginários

Como sabiamente recomendou Fernando Pessoa, a criação de amigos imaginários, o exercício de conversações mentais que jamais seriam efetivadas em vida, a realização do impossível pela mente, tudo isso, para além dos benefícios provenientes das novidades infinitas, acarreta contribuições inestimáveis para a organização do raciocínio. É uma prática que testa limites, expõe contrapontos, alastra horizontes, além de suprir a carência oriunda da limitação da experiência. A mente sai fortalecida porque exercitou-se e conheceu mais, o pensamento toma contornos mais sólidos, e o hábito, com o tempo, converte-se numa salutar, prazerosa e insubstituível necessidade psíquica e existencial.

Parece que os traços colocados por Dostoiévski…

Parece que os traços colocados por Dostoiévski, especialmente, na personalidade de Míchkin seriam inconcebíveis para alguém que nunca os observou atuantes na vida real. Inconcebíveis porque pareceriam absurdos e nada convincentes. Mas aí está: essa inocência que aparenta não sendo estupidez, essa absoluta falta de espanto, essa benevolência sem limites, esse falar que erra na escolha das palavras, esse agir meio tímido, meio confuso, que parece indeciso e tanto gera estranhamento… Toda essa complexidade que sempre aparenta aquilo que não é, somada ao olhar de quem sabe e aceita, sem medo, sem surpresa, sem julgamento e sem reação, induz quem a observa a uma perplexidade que a lógica é incapaz de explicar. O raciocínio não admite o que vê e, faltando-lhe explicação melhor, põe tudo na conta do desvario e do absurdo. Míchkin, porém, é real, e contrariando as expectativas de uma raça aprisionada na mesquinhez de espírito, mostra que a alma humana, elevando-se, despega-se do que lhe prende ao chão.

Feliz aquele que descobre…

Feliz aquele que descobre não ser necessário responder quando lhe dirigem a palavra, não ser preciso conceder atenção a quem lha exige, não ser mandatório curvar-se ao teatro das conveniências e resumir-se a um escravo deste jogo social. Felizes os misantropos, os homens embrutecidos das cavernas, os eremitas, os peregrinos, os rebeldes, e todos aqueles que têm repugnância ao convívio! — pois felicidade, afinal, é não ser um infeliz.

Oliver Twist, de Charles Dickens

Parece-me o maior acerto de Dickens, em Oliver Twist, residir nos capítulos iniciais da obra. Dickens apresenta-nos o protagonista em condições tão comoventes, que é impossível que este não nos suscite empatia imediata. A história prossegue, e o enredo é conduzido com inteligência: o tempo inteiro percebemos que havia outras escolhas, talvez mais naturais, mas que minariam a relação que travamos com Oliver — Dickens opta por não lhe manchar o personagem, nem limitá-lo ao óbvio. Oliver Twist, sem dúvida, desde o princípio da narrativa mostra-se mais interessante que um pobre coitado. Os antagonistas, os cenários, a progressão da trama: tudo isso é muito bem descrito e convence. A partir da metade da obra, porém, nossos anseios começam a ser satisfeitos, e a narrativa culmina num desfecho planejado para agradar. Aqui, talvez, poder-se-ia lamentar a ausência de surpresa, como também poder-se-ia apontar que se esperava mais iniciativa do protagonista. Como obra de arte, porém, Oliver Twist encerra um arco dramático justo e, portanto, é muito boa.