Percorro vários dos discursos de Osho…

Percorro vários dos discursos de Osho e sou gradativamente provocado por uma engraçada ironia. Eu, que repetidas vezes alfinetei a “mente ocidental” e seu formalismo; eu, enquanto percorro estas linhas, interpelo o autor a cada página: “De onde tirou isso? Onde está esta e aquela outra citação de Buda? E este sutra, de onde vem? De onde estão saindo todas essas frases entre aspas?”… É como se uma força me dissesse: “Não era isso que desejavas? Não estavas tu, ainda hoje, debochando da referenciação estéril e da fundamentação capenga de um sujeito?”. Pois é, pois é… A verdade é que sou insuportavelmente ocidental. Leio orientais com prazer, mas é possível que não soubesse sequer me portar diante de um deles. Se lhes algo aprendi e aprendo, não há dúvida que há entre nós uma discrepância fundamental que me não permitirá, nunca, assumir-lhes integralmente qualquer doutrina, vê-la plenamente impregnada no meu pensar e agir ou, noutras palavras, há um limite de quanto lhes posso aceitar. Assim, aproveito algumas centenas de páginas mas, dado momento, a mente fatiga e exige-me um volume com bibliografia e notas de rodapé.

Em tônicas sequenciais…

Em tônicas sequenciais, algo quase sempre de sonoridade desagradável em poesia, dá-se uma escalada de acentuação que, enfraquecendo o primeiro acento, tonifica o segundo. Poder-se-ia dizer que, desta maneira, gera-se artificialmente no verso uma acentuação mais forte que a de uma sílaba tônica comum: portanto, uma átona escala para uma acentuada que escala para outra mais acentuada. De maneira inversa, é possível gerar um movimento de acentuação artificialmente decrescente nalguns casos quando, trabalhando versos binários, insere-se um vocábulo esdrúxulo cuja última sílaba ocupa uma posição onde deveria haver acento; o efeito é oposto: esta última sílaba, embora não seja, parece menos acentuada que a anterior, graças à ressonância da primeira, que assim aparenta mais forte que normalmente seria. Ambos procedimentos, se utilizados com inteligência, podem suscitar efeitos interessantes.

E notável a quantidade de escritores que romperam…

E notável a quantidade de escritores, grandes escritores, que romperam com o idioma materno no último século. Parece este ter sido o século dos desterrados. Boa parte deles expatriaram-se em decorrência das guerras, mas houve vários que o fizeram livres de estímulo exterior. Disso, a decisão mais ou menos natural do rompimento. Curioso: é improvável que o prazer ou, talvez, o fascínio de escrever em língua estrangeira dure mais de dois ou três parágrafos; logo se desvela o trabalho penosíssimo que se há de fazer ante o dicionário. Mas ainda assim, prosseguiram eles, acaso com uma força de vontade que mereça admiração dobrada. E que dizer dos poetas? Estes, certamente eximiram-se do purgatório… E a tendência, parece-me, não se foi com o século, com a diferença que, agora, parecem todos elegerem a mesma opção. Que concluir?

Os distúrbios rítmicos

Os distúrbios rítmicos, se utilizados proposital e inteligentemente, parecem de efeito enfático superior a quase tudo quanto se pode fazer em poesia. Tônicas sequenciais, antecipação do primeiro acento do verso, deslocamento da tônica principal, palavras proparoxítonas perturbando versos de padrão binário… esses e outros detalhes, quando incidem sobre uma aparente estabilidade rítmica, causam um efeito poderoso, que sugere do arroubo ao desespero, manifestações típicas de um rompimento harmônico que impele a expressão intempestiva. A técnica, embora possa ser confundida com o erro por incautos, não será jamais por aqueles que sentem o verso enquanto o leem: o erro danifica, jamais fortalece a expressão. De resto, é uma notável qualidade dos padrões que eles permitem que sejam conscientemente violados.