Vigny e Kafka

Linhas de Vigny:

Dans cette prison nommée la vie, d’où nous partons les uns après les autres pour aller à la mort, il ne faut compter sur aucune promenade, ni aucune fleur. Dès lors, le moindre bouquet, la plus petite feuille, réjouit la vue et le coeur, on en sait gré à la puissance qui a permis qu’elle se rencontrât sous vos pas.

Il est vrai que vous ne savez pas pourquoi vous êtes prisonnier et de quoi puni ; mais vous savez à n’en pas douter quelle sera votre peine : souffrance en prison, mort après.

Ne pensez pas au juge, ni au procès que vous ignorerez toujours, mais seulement à remercier le geôlier inconnu qui vous permet souvent des joies dignes du ciel.

É curioso como Vigny e Kafka, partindo de premissas semelhantes, chegam a conclusões completamente diferentes. A analogia entre vida e prisão, o absurdo da punição injustificada, a certeza da condenação… todos esses fatores, em ambos, são como obsessões de que eles se não conseguem desviar. O reconhecimento das próprias condições parece-lhes uma imposição da consciência. Nas mãos de Kafka, o enredo culmina de praxe em desespero; já em Vigny, aí está uma recomendação que soaria estranha a muitos de seus críticos: “remercier le geôlier inconnu qui vous permet souvent des joies dignes du ciel”. “Joies dignes du ciel”: isto, da pena do “pessimista” Alfred de Vigny! É verdade, é verdade: nem todos os críticos ignoraram-lhe esta face… Mas é possível ir além e dizer que, talvez, o próprio Kafka seria alvo de julgamentos precipitados. Será que, em Kafka, tal olhar seria impossível? Quer dizer: o último ato da vida de Kafka, o seu testamento, deixa-nos reticências. Mas não seria uma má hipótese conjeturar a espantosa resolução de Kafka como simples arrependimento de suas conclusões ou, ao menos, arrependimento de sua obra não deixar o esboço de uma conclusão diferente…

O poeta converte-se com facilidade em bom prosador

Já notaram que o poeta converte-se com facilidade em bom prosador, enquanto o contrário dificilmente acontece. Comparada à prosa, a poesia apresenta um nível de dificuldade tão superior que ao poeta aquela parece-lhe quase brincadeira. Para compor versos é preciso, em primeiro lugar, estar num estado de espírito propício, isto é, num estado de espírito que permita concentrar-se inteiramente na composição. Dispersa, a mente não faz poesia. Em seguida, a lentidão no compor, as dificuldades técnicas, o grande número de elementos que se devem harmonizar na criação, tudo isso, com o tempo, acostuma o espírito a uma paciência e uma disciplina que, para fazer linhas em prosa, está muitíssimo além do necessário. Faz-se prosa à força; prosa fluida e natural. O simples movimentar dos dedos é suficiente para estimular a criação mental que, como por automatismo, registra-se ao mesmo tempo que vai sendo criada. Quão diferente é fazer poesia! O prosador acostumado com essa facilidade quase terapêutica, se arrisca-se a compor versos, encontrará algo muito, muito diferente…

Verlaine parece um personagem dostoievskiano

Percorro um volume de Verlaine e as impressões misturam-se a um ponto em que é impossível arriscar qualquer conclusão. Toda essa irreverência inata, essa biografia indecente, essas linhas que mesclam êxtase e fadiga, essa alma terrivelmente perturbada… Verlaine parece um personagem dostoievskiano à beira da loucura. E como escreve bem! É tão irritante como natural que sua obra, isto é, a obra de um artista devasso, tenha ecoado tão fortemente, sobretudo entre os incontáveis devassos que se reputam, mas nunca serão artistas. Porém, é inegável o talento com que Verlaine representa, para dizer como Carpeaux, suas “sensações musicais”. Impõe-se a comparação com Villon e impõe-se, igualmente, o reconhecimento. Grande artista!

Que saiam como o espelho do estado de alma…

Estou nos versos derradeiros de mais um voluminho de poemas. Nestes nove ou dez meses de trabalho; observo com prazer que me não sentei à mesa senão com motivação semelhante à de um Vigny, de um Antero, de um Leopardi. E disto resultou que os versos, todos eles, saíram-me carregados, desprovidos totalmente daquela “graça” de que falava Goethe. Ou, ao menos, é assim que me parece. Creio improvável, senão impossível, que algum dia me submeta ao trabalho extremamente fatigante de caçar palavras para produzir essa “graça” que tanto deleita. Ainda que me caia na conta bancária uma bênção, ainda que eu esteja no melhor de meus humores, opera algo como que automatizado pelo hábito: psicologicamente, o sentar-me para compor versos cumpre uma sequência quase religiosa que preenche-me a mente de uma seriedade que repugna o fútil, o leve, o “gracioso”. Se é para fazer versos, que saiam como o espelho do estado de alma de alguém que encara-os como a última oportunidade de expressar-lhe o que pulsa mais forte. Que saiam perturbados, complexos, desagradáveis! E que jamais deixem parecer que aquele que os compôs estava a se divertir…