Um ano inteiro para tecer um punhado de versos!

Um ano inteiro para tecer um punhado de versos! E ainda não os finalizei!… A sensação é de uma lentidão inadmissível para alguém que tem na própria obra a raison d’être. Incomoda, e incomoda muito essa produtividade de tartaruga quando ao mesmo tempo as ideias parecem desesperadas a bater nas grades de uma jaula reclamando libertação. Querem elas inundar imediatamente os papéis, tal como também quero, mas não cedo e não largo a prudente recomendação de “um trabalho de cada vez”. Não há como ignorar a possibilidade de uma morte imediata: caso tal cenário se efetivasse, restaria, em extensão muito superior aos pouquíssimos versos que compus, um calhamaço desorganizado e quase incompreensível de anotações.

O desígnio da “grande obra”

Goethe, nas Conversações, lamenta o ter-se deixado seduzir pelo desígnio da “grande obra”. Diz saber o quanto ele o prejudicou e se arrepende de ter-se permitido bloquear a mente para suas valorosas manifestações espontâneas que, embora reclamassem atenção, tiveram de ser descartadas em prol do objetivo maior. Compreensível… não é difícil admitir que algo se perca devido a essa necessidade de concentração do esforço que é imperiosa para a criação de uma “obra de vulto”, como diz Goethe. Mas talvez seja um preço justo, como talvez seja arriscado apostar todas as fichas em uma obra fragmentária, de inspiração ocasional. Muito de Goethe deriva do Fausto, e se algo perdeu ele com criá-lo, ora, ganhou-o afinal! É muito difícil aderir integralmente à recomendação de evitar as “grandes obras” quando vemos que delas proveio o melhor de parte considerável dos grandes autores. Se, por um lado, é justíssima a observação de que são elas perigosas, e de que talvez não sejam indicadas à maioria dos artistas, por outro lado nalguns casos parece extremamente proveitosa a canalização dos esforços para uma única finalidade.

Após entranhado o costume do período conciso…

Após entranhado o costume do período conciso, direto e objetivo, tão em voga nestes dias, que o têm como quase exigência do estilo, é um prazer o mergulhar esporádico na passada de outros tempos, lenta, cadenciada, parecendo evidenciar que não se faz arte com pressa, que a atenção pede detalhes, adiciona nuances, singulariza enquanto se vai estendendo. Imergir neste vagar é como que fugir da banalidade moderna, e a medida que os períodos progridem ficamos com a sensação de uma profundidade que escapa a este tempo, que perdeu-se em prioridades fúteis e transformou-se em inimigo daquele estado tranquilo que acentua a tendência humana para a contemplação.

Se o verso alexandrino clássico, exigindo a sexta sílaba…

Se o verso alexandrino clássico, exigindo a sexta sílaba sempre aguda ou grave em palavra que se elida na seguinte, visava, com tais regras, construir uma unidade dodecassílaba, parece-me que em nada deixa a desejar o alexandrino português que se valha da abundância de palavras esdrúxulas do idioma, ocasionalmente inserindo-as com a tônica na sexta sílaba e elidindo-as na palavra seguinte. Muito pelo contrário, parece-me haver um quê de novidade nesta construção não encontrada em versos franceses. Bilac e Guimarães Passos, dizendo que está vetado ao alexandrino “clássico, o verdadeiro, o legítimo” o vocábulo esdrúxulo com tônica na sexta sílaba, talvez não se atentaram para o fato de que tal não ocorre em poetas franceses, tidos como introdutores deste metro, pelo simples fato de que a prosódia francesa não admite tais palavras, acentuando sempre a última sílaba não muda de seus vocábulos. Não vejo por que o poeta português deva adaptar seus versos para esta que mais parece uma limitação da língua francesa.