Para o artista iniciante, intimida o constatar-se…

Para o artista iniciante, intimida o constatar-se precedido de dezenas de séculos e um número incalculável de outros artistas que efetivaram o que ele tão somente pretende fazer. Se adicionamos os críticos e teóricos da arte, teremos então uma infinidade de juízos, escolas, definições daquilo que é ou não é arte, é ou não é bom, deve-se ou não se deve fazer. Nisto, aquele que ainda luta para encontrar a expressão daquilo que sente ver-se-á bombardeado e dificilmente arriscará o primeiro passo, sendo mais cômodo calar-lhe a voz interior. A verdade, porém, é que o artista tem de assumir-se, e será tanto melhor quanto antes o fizer. Todo esse imenso passado, que encanta e intimida, deve ser aproveitado na medida em que lhe seja útil, e jamais deve configurar um obstáculo para a expressão daquilo que lhe pareça justo. É preciso coragem! E, ademais, personalidade para executar exatamente aquilo que quiser.

O difícil, em arte, é aproveitar inteligentemente…

O difícil, em arte, é aproveitar inteligentemente as manifestações espontâneas que surgem durante o processo, inserindo-as na estrutura predefinida sem prejudicar o conjunto. Com frequência, os pontos mais altos de uma obra são oriundos de lampejos inesperados que o autor soube aproveitar. O todo, é certo, carece de ordem; e ordem não se faz de uma centelha que brota subitamente no espírito. Mas o artista, se surpreendido da ideia adventícia, fará muito bem transferindo-lhe este efeito surpresa para a obra. A arte ganhará.

Uma sensação inexplicável de dever persegue-me…

Uma sensação inexplicável de dever persegue-me, já há muito tempo, e exige-me a retratação do drama de D. Pedro II. Em mente, já o realizei em versos, peças, roteiros de cinema… Mas, em verdade, realizei-o por me não poder livrar desta obsessão. Por quê? É engraçado que, de praxe, sempre que decido finalmente executar a tarefa, dezenas de motivos fazem-me abandoná-la. E a imagem deste homem continua vindo-me em mente ao escutar o Réquiem, de Mozart. Sêneca, Sócrates e outros muitos cuja injustiça do fim que tiveram salta aos olhos me não inspiram sensação semelhante. É D. Pedro II, somente ele, e por algum motivo tem de ser ele. Não sei que dizer…

É curioso notar que muitos grandes artistas…

É curioso notar que muitos grandes artistas, especialmente nos séculos XIX e XX, travaram relações pessoais entre si. Curioso porque, algo que deveria configurar a normalidade, parece a exceção. Séculos anteriores, em que as distâncias pareciam maiores, viam-se mais ou menos dependentes de um capricho do destino em concentrar os espíritos superiores em determinadas localidades, como maravilhosamente ocorreu algumas vezes na história. Mas, ainda assim, algo a mais é preciso para que uma amizade seja estabelecida. E tanto os caprichos, quanto este algo a mais parecem ter abundado nos séculos XIX e XX, em que foi enorme a quantidade de grandes nomes que se conheciam, que eram verdadeiramente amigos. Não posso notá-lo, sem sentir um sincero contentamento por todos eles.