A fibra e a resiliência

A fibra e a resiliência só são possíveis no homem humilde o bastante para, vestindo a carne, admitir a necessidade de ancorar o espírito em algo maior. Só afirmará o contrário aquele cuja missão não exija virtude, posto que esta, necessariamente, é o esforço contínuo e contrário ao comodismo da matéria. Não há homem cujo espírito não oscile, e o espírito, quanto mais alto, mais é capaz de oscilar. Percebê-lo é admitir a necessidade de um apoio, alheio a si mesmo, que o empuxe ao ideal que ele mesmo definiu.

O homem que se priva da dimensão religiosa…

O homem que se priva da dimensão religiosa perde em experiência, perde em potencialidade e perde, sobretudo, em conhecer-se. Havê-la é algo que não pode negar, e ignorá-la não é senão mutilar-se. Assim que, caso queira conhecer-se e entender-se inteiramente, deve estimulá-la e manifestá-la ainda que pela busca. E se, um dia, chegar à conclusão que o esforço religioso não o premiou, verá que sua própria existência já é evidência de uma aspiração superior, de um desejo sincero de encontrar o elo que o liga ao restante da criação: uma evidência, portanto, que não pode senão enobrecê-lo.

Há apenas um parâmetro relevante

Existencialmente, há apenas um parâmetro relevante: o grau de satisfação do indivíduo com a própria vida. Dele derivará sua felicidade e sua miséria, no sentido mais preciso de ambos os termos. Embora simplíssima, e não represente senão o sentimento de fazer aquilo para o qual se nasceu, a satisfação exige, primeiro, a consciência da individualidade, do livre-arbítrio e da capacidade de criação. O resto é afirmá-los de contínuo, resumindo a própria existência a este ato. Fazê-lo é simplesmente ser com consciência e plenitude, e com fazê-lo desaparece a relevância de todas as demais questões. Aquele que experimenta satisfação com a própria vida é tomado de uma vontade, de uma euforia saudável que impulsiona a mais viver. Em mesma medida, a insatisfação gera o impulso contrário. Daí que, em essência, felicidade e miséria são alheias ao conforto e referem-se sobretudo a um estado interior.

O movimento espiritualista

O movimento espiritualista, se assim podemos chamá-lo, que emergiu nos últimos dois séculos e tem-se expandido com vigor espetacular, invadindo incontáveis áreas do conhecimento e aprofundando-se desenfreadamente, não pode senão inspirar bons sentimentos. Parece que, de uma só vez, juntaram-se a experiência, a seriedade, o método e, sobretudo, a boa-fé num número de espíritos que já não se pode contar nos dedos, formando uma corrente que não pode ser detida, posto que apresenta simultaneamente o preparo e o ânimo necessários para afirmar-se e levar a cabo a sua missão. O que mais impressiona é a terminologia, por muito tempo banida da literatura séria, que agora se emprega com absoluta naturalidade após uma invasão inesperada. Não há dúvida que, no painel da história, ficarão estes dias marcados por esta radical e benéfica transformação.