O que a escrita proporciona não se alcança pela vida: ação de nenhuma espécie pode igualá-la ou substituí-la. De início, a ordenação e expressão do pensamento — o passo adiante à leitura; a consolidação do aprendizado e do raciocínio. Depois, o caráter reflexivo do processo: ainda que fosse possível discursar pelo tempo que se escreve e sobre aquilo que se escreve, o discurso é radicalmente diferente da escrita por não permitir, ou melhor, por não exigir a revisão, que resume-se a uma reflexão aprofundada sobre aquilo que se ensaiou exprimir e uma decisão quanto à sua expressão mais precisa. Por individual, a escrita incentiva a autoanálise, conjugando-a a uma ação que se materializa no registro do pensamento. Destarte, para aquele que escreve, pode funcionar simultaneamente como desabafo e meditação. Nada disso, porém, expressa os principais efeitos do processo, que assim poderiam ser resumidos: crescimento e transformação.
Categoria: Notas
Aquele que se acostume a escrever…
Aquele que se acostume a escrever séria e regularmente sobre a vida logo verá o hábito transformar-se numa necessidade que, caso negligenciada e submetida a um período de abstinência, fará com que sua cabeça se sinta fisicamente a explodir. Chega a ser engraçado como, especialmente no princípio, é preciso esforçar-se pela cristalização do hábito, é preciso forçar as palavras a acostumarem-se a se transferir para o papel. Em poucos anos, já não se pode viver sem fazê-lo, e a simples falta de um bloco de notas, seja ao lado da cama ou debaixo do chuveiro, pode causar uma tremenda perturbação.
A escrita prejudica a memória
Disse algum sábio oriental que a escrita prejudica a memória, e que esta, se não regularmente exercitada, prejudica o conhecer. Tal foi dito a fim de justificar o conhecimento oralmente transmitido e apenas mentalmente registrado. É possível que aí esteja uma grande verdade. Contudo, há ressalvas a se fazer. Em primeiro lugar, a oralidade pressupõe um falante e um ouvinte; no mais das vezes, um mestre e um discípulo. O mestre faz bem a si mesmo ensinando, isto é, exercita a própria memória no ato de ensinar. Já o discípulo o escuta, e não o faz senão objetivando tornar-se um mestre futuramente. Presume-se, também, que o mestre tenha tido um mestre. E daí vemos que tal afirmativa, embora possa ser verdadeira, pressupõe uma tradição, um ambiente, noutras palavras, inexistente para a maioria dos mortais. Supondo que não haja o discípulo, que faria o mestre para exercitar a memória? Não é certo que discursar para as paredes seja a melhor opção.
As masmorras do pensamento
Um pensador independente preocupado com as finalidades últimas da existência tem de necessariamente alojar-se por um tempo nas masmorras do pensamento. E, então, estudá-las e conhecê-las. Alguns ali permanecem por toda a vida; mas parece, contudo, que chega o momento em que é preciso deixá-las e retornar ao ambiente prévio, como retornam sempre os heróis de suas jornadas: transformados e com algo a ensinar.