Se algo é publicado, será lido: é esta uma realidade inevitável. Mas é bom pensar que tal nunca ocorrerá, pois assim se pode criar com tranquilidade e independência. Há algo de belo e solene neste silêncio que acompanha a criação e, o mais das vezes, a recepção de uma obra. É um silêncio ilusório, mas extremamente estimulante, e se fez presente na maior parte das grandes obras já concebidas. Se pensar no natural rompimento deste encanto, o artista julgará melhor jamais publicar nada, e por isso não deve fazê-lo: deve permitir-se iludir, e aproveitar a calmaria como se fosse garantida e eterna.
Categoria: Notas
Talvez não haja sensação mais prazerosa…
Talvez não haja sensação mais prazerosa do que aquela que brota como um riso diante das mais amargas circunstâncias. Um riso sincero, que atravessa o espírito e se manifesta pleno, como irradiando-se por cada molécula. Enfim a vida, e dane-se ela! Sem dúvida, é preciso muita maturidade para experimentá-lo, e é justíssima a representação do grande sábio como aquele que se permite um riso sereno, perene e despreocupado. Há uma dimensão transcendente neste riso que brota como desenlace de um tremendo esforço espiritual.
Aqueles que se impressionam com a força…
Aqueles que se impressionam com a força do amor certamente não conhecem a misantropia, sentimento infinitamente mais poderoso e que, este sim, não se descola daquele que domina um segundo sequer. Cada aspecto da realidade o relembra e o reforça; não se lhe pode despojar para nenhuma atividade. O estímulo intelectual que proporciona é indescritível, e aquele que o experimenta vê-se sempre a aperfeiçoá-lo, a despeito de como viva e de quais ambientes esteja acostumado a frequentar. Se o misantropo concede uma oportunidade ao próximo, este reforça-lhe a misantropia; se não a concede, ele a reforça mesmo assim. Destarte vive-se quase sempre de maneira planejada, e cada ação que se executa ou se relega toma um sentido mais nítido e tem consequências mais facilmente mensuráveis. A misantropia amplifica cada ato e cada sentimento e torna de uma singularidade extraordinária quaisquer manifestações que porventura a façam transigir.
A grande arte brota de uma motivação não artística
A grande arte brota de uma motivação não artística; grande arte é o que se torna após modelada pelo artista. Fazer arte por fazê-la não pode senão gerar arte menor, e os exemplos são tão abundantes que é correto afirmar que a arte superior sempre será, em maior ou menor medida, autobiográfica. Não é preciso que se conheça a biografia de Shakespeare para conhecê-lo, visto que sua obra prova-nos de quais questões sua mente se ocupou enquanto viva. Shakespeare não seria quem é caso tirasse-lhe as peças do efeito artístico que tencionava produzir; assim como Dostoiévski jamais teria a mesma vitalidade se escrevesse romances a partir de “motivos artísticos”. A arte é a forma que se dá a uma motivação que não exige um artista para se manifestar — nem para a compreender.