Na arte e na filosofia, a originalidade alcança o reconhecimento mais rapidamente que o valor. Na filosofia, porém, parecem as ideias originais garantirem a longevidade, e quanto mais originais forem, mais seguramente a garantem. O fenômeno é curioso, porque ocorre a despeito do valor da ideia. Esta, se original e ainda que absurda, ainda que mil vezes refutada, parece merecer sempre a generosidade de uma citação. Já na arte, embora a originalidade faça barulho, desgasta-se invariavelmente com o tempo. Na arte, uma obra só perdura se, para além da originalidade, guardar alguma coisa de valor.
Categoria: Notas
É preciso escrever regularmente…
É preciso escrever regularmente para que o hábito automatize a reafirmação do voto e o espírito não sucumba aos perigosíssimos lapsos nos quais a literatura parece insuficiente e a motivação se esvai ante a aflição de escrever ou, antes, ante a aflição de existir. O escritor não pode permitir que a limitação da vida transmita a ilusão de que a literatura é também limitada. É preciso que enxergue nesta justamente o que aquela carece; portanto, transformando a ocupação não somente num refúgio, mas na solução do problema de existir.
A mudança pode ser melhor compreendida…
A mudança pode ser melhor compreendida quando se pensa não em “mudança”, mas na morte de um estado para o nascimento de outro novo. Quando se muda, o que foi deixa de ser e dá lugar a algo diferente, quer melhor, quer pior. O estado anterior, porém, torna-se passado. Assim, é prudente ter cautela sempre que se pensa em mudar algo que agrada ou satisfaz. Mudar algo bom é destruí-lo, e nem sempre o resultado da mudança será capaz de satisfazer.
Toda essa aflição experimentada pelo escrito…
Toda essa aflição experimentada pelo escritor sério poderia ser mitigada caso para ele fosse possível prometer-se e enganar-se, a cada nova obra, que após completá-la deixaria de escrever. Portanto, enxergar a obra presente como a última, sempre. Assim, a ilusão do alívio posterior daria forças para que o penosíssimo trabalho do momento não afligisse, e sim motivasse por ser o derradeiro de um espírito que está a um passo de descansar. Lamentavelmente, isso não é possível. O que é possível é enxergar em desalento o quanto ainda se tem por fazer, é sentir-se aprisionado ao dever, obrigado a forçar linhas que recusam-se a sair, e então fritar-se num processo terrível do qual a satisfação é estranha e o resultado é sempre a mesmíssima aflição.