Farias Brito é um desses homens cuja biografia…

Farias Brito é um desses homens cuja biografia acentua sobremaneira a emoção — e não há outra palavra — que experimentamos em contato com suas obras. É impossível não se comover, e não ser tomado da mais profunda admiração ao constatar que estas, mais do que o valor que possuem como obras, representam uma vitória extraordinária sobre as circunstâncias que pareciam condenar o filósofo a jamais sê-lo, a jamais sequer pensar em sê-lo. Pensamos no menino, e em seguida vemos o homem. Lemos e relemos a prova material do impossível, e então somos obrigados, pela honra, a deixar de lado todas as questões supérfluas e saudar, num grito de reconhecimento e consideração, o espírito que se provou valoroso pela vida e eternizou-se pelo exemplo de superação.

Diz-se que a arte consiste na proporção e na ordem…

Mais uma de Farias Brito:

Diz-se que a arte consiste na proporção e na ordem, e é possível que esteja realmente aí uns dos seus segredos. Mas seria erro supor que nisto consiste todo o seu poder. A proporção e a ordem são, dentro de certos limites, condições da beleza estética; mas são apenas condições exteriores. Há, porém, para completá-la, na sua verdadeira significação, um elemento mais profundo, de sentido puramente interno, que não se poderá explicar simplesmente pela proporção ou pela medida, como por quaisquer outros processos externos. É esse elemento oculto, misterioso, inexplicável, pelo qual a obra d’arte nos impressiona docemente, fazendo sonhar e ver cousas longínquas, esse poder maravilhoso e incompreensível, com que as cousas mais simples fazem, muitas vezes, surgir, como de improviso, sentimentos estranhos que dormiam ignorados nas profundezas d’alma. Lágrimas rebentam, em certos momentos, instintivamente, violentamente e sem que possamos contê-las, por ocasião de uma emoção estética profunda. Tudo se anima, tudo se torna espiritual e humano. E de tais formas, de tais complicações e modalidades de sentimento é capaz o homem, que a natureza inteira se torna, muitas vezes, por assim dizer, pequena, em face do mistério e da grandeza infinita da vida interior. Seria, porém, absurdo tentar explicar tudo isto por processos puramente mecânicos. Os artistas têm deste fato a clara compreensão. Mas os psicólogos de gabinete, não; preocupados com a ideia de dar a interpretação objetiva dos fatos psíquicos, deslocam os dados naturais do problema, e tentam uma cousa em verdade impraticável: — localizar o que é independente do espaço e não se pode conceber como corpo, traduzir na linguagem dos fatos objetivos o que só se pode explicar e compreender como modificação puramente interna, como fato subjetivo, numa palavra: objetivar a consciência. Era como se se pretendesse, por exemplo, representar a figura material da dor ou fazer o desenho de um gemido: o que, aliás, é possível mas apenas simbolicamente. Quem tal tentasse, porém, faria obra d’arte e não de ciência: o que prova que a arte tem mais poder que a ciência. A ciência, de si mesma, devendo ser a interpretação pura e simples da realidade, ficaria fora de seu próprio domínio, se recorresse a processos semelhantes de representação simbólica.

Se consistisse na proporção e na ordem a essência da arte, teríamos uma impressão mais forte lendo uma partitura que escutando-a executada. Não haveria motivo para comparecer fisicamente a uma orquestra, ou visitar fisicamente um museu. Teríamos, aliás, uma impressão muito mais potente se lêssemos análises acadêmicas de todas as obras, em vez de apreciá-las diretamente. Tais são os absurdos que têm de enfrentar aqueles que não enxergam na realidade senão aspectos exteriores, mensuráveis, previsíveis e passíveis de racionalização. E se assim fazem, ou julgam-se compelidos pela razão a fazer, serão para sempre iludidos e terão de se contentar com os medíocres resultados da incompreensão.

Despegar-se do mundo não significa anular…

Despegar-se do mundo não significa anular quaisquer expectativas mundanas, mas adotar uma postura impassível diante daquilo que sucede. Esperar que uma boa ação dê bons frutos é natural e até estimulante; planejar e agir conforme um planejamento na esperança de que este tenha êxito é, simultaneamente, valorizar o tempo e o próprio ser. Bem diferente é o caso daquele cuja expectativa não estimula nem dignifica o ato, e cujo existir resume-se a uma ânsia descontrolada que tem no mundo, e não no ato, os parâmetros para a própria realização.

Seria interessante que a filosofia retornasse…

Senão sempre, certamente hoje seria interessante que a filosofia retornasse aos primórdios como antídoto à própria deturpação. Para ensiná-la, seria melhor fingir que nada nunca foi escrito e expor conceitos como se o estivessem fazendo pela primeira vez. O professor, então, ensinaria ao ar livre com os alunos sentados em roda, e quando dissesse “ato”, mostraria precisamente o significado desta palavra, de forma que, para o resto da vida, os discípulos tivessem em mente o ato real presenciado, e não cedessem à tentação de aplicar tal palavra em um sentido que se descolasse daquele que o mestre fê-los presenciar. E assim para todas as palavras importantes. É sempre proveitoso garantir a ciência de uma realidade patente para a qual deve se voltar os olhos e sem a qual o raciocínio é um desperdício.