A Igreja da Misantropia

Despojo-me de minha modéstia para afirmar que ninguém jamais esteve tão apto como eu a fundar a Igreja da Misantropia. Possuo para tanto a completa fundamentação teórica e a prática de um sumo sacerdote. Mas confesso, com uma certa tristeza, que Karl Kraus daria um padre exemplar. Diz ele ter descoberto ser possível conviver com as pessoas em terra estranha, isto é, num ambiente em que não entenda uma palavra daquilo que dizem e lhes é impossível qualquer comunicação. Assim, o próximo realmente nos parece tolerável. Mas impressiono-me de não considerá-lo novidade, posto que isso eu mesmo já escrevi. É curioso como, em todas as vezes, dá-se exatamente o mesmo: sinto-me alegre por detectar a anomalia compartilhada, mas ela nunca me impressiona. Sou capaz de cada uma e todas as manifestações misantrópicas jamais concebidas; não há particularidade que se me escape, e empatizo com toda expressão de repulsa e distanciamento para com o homem. Banir por lei a linguagem, propõe Karl Kraus; permitir ao homem somente a manifestação gestual em casos de emergência. E eu apoio, é claro, sendo estas proposições que já partiram de meus próprios dedos. Mas esta igreja jamais prosperaria; e por mais que haja técnicas eficacíssimas de afastamento, como há propostas interessantes para a construção de muros que o separem do meio, ao misantropo só há e sempre só haverá uma solução definitiva — e esta, é prudente evitar.

Uma pessoa com alguma educação…

Uma pessoa com alguma educação não interrompe outra ao telefone; mas interrompe, sem recear por um instante, uma que está a pensar, tão logo tenha o menor e mais insignificante impulso comunicativo. Disso só se pode concluir que o pensamento é uma doença, e que pessoas normais não estão acostumadas a ele; caso contrário certamente saberiam que um “com licença” ou um “me desculpe” não amenizam em absolutamente nada o violento e brusco corte que operam no fluxo das ideias, que se vão podendo jamais retornar. Desse incomparável inconveniente não cuidaram nem a moral, nem as convenções: não há freios de nenhuma espécie para aquele que se sente no desejo de abordar um desconhecido; muito pelo contrário, é o desconhecido que parecerá mal-educado caso não conceda atenção àquele que a exige. E, finalmente, quanta satisfação ao vê-lo pela primeira vez notado por Karl Kraus! É assunto para um livro inteiro e, mesmo assim, parecem todos acostumados a ouvir novidades quando vão à barbearia; a serem abordados insistentemente por qualquer um que se apresente com o intuito de vender. Muito bem, muito bem!

Doutor Fausto, de Thomas Mann

O principal problema desta obra é a expectativa: trata-se do romance de um autor que, vinte anos antes, publicou A montanha mágica. Esperamos, então, que se reflitam estas duas décadas em amadurecimento e altitudes superiores — algo que não acontece, parecendo Mann, ao contrário, ter descido da montanha. Doutor Fausto é um belíssimo exemplo dos defeitos autenticamente alemães: é uma obra de quase cinquenta capítulos que seria muito melhor e mais potente se resumida em três. Seu ápice consiste na invocação do diabo, um personagem que, por si só, é sempre interessante. Se a obra se resumisse a este momento e suas consequências, talvez teríamos uma impressão diferente; mas Mann faz questão de nos entediar com algumas centenas de páginas ociosas. Que dizer? Carpeaux comparou esta obra ao Jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, dizendo terem ambos os autores se refugiado na música. Mas oh, quanta diferença! Parece impossível compará-las sem que Doutor Fausto saia completamente humilhado: é esta uma obra desprovida de elevação, que ostenta uma minuciosidade medíocre, como escrita pelo burguês que se entretém exibindo conhecimentos inúteis e escreve por hobby. Que decepção! Parece inevitável imaginar Mann, em suas mansões luxuosas, tomado de um tédio semelhante ao dos velhos indianos, incapaz de perceber-se esmorecendo quanto mais se permitia “refugiar”. Dói vê-lo neste grande escritor…

O moralismo é o primeiro passo

O moralismo é o primeiro passo de uma trajetória intelectual que não se pode resumir ao moralismo. É preciso que o moralista dê um passo adiante, e supere as constatações provenientes da análise do mundo: ele deve transformar-se e despegar-se deste caso queira progredir. Mas é difícil concentrar-se em evoluir, superar, esquecer, colocando uma pedra sobre aquilo que um dia mereceu atenção; o fazê-lo parece como uma traição à própria natureza, uma negação do passado e uma desvalorização daquilo que a mente produziu. Julgamentos errôneos, porém. A vida intelectual é justificável somente enquanto se movimenta, e o intelectual somente enquanto se permite criar.