A distância entre o público e o artista

Nada representa tão bem a distância entre o público e o artista como o teatro e não há grande peça dramática imune a vaias em primeira apresentação. Fato compreensível, posto o grande efeito dramático ser avesso ao agradável. O dramaturgo, pois, pode medir o próprio sucesso pelas reações negativas e, se recebe aplausos, talvez seja artista menor. Assim é a dramaturgia. As pedradas evidenciam-lhe a força e o natural é que flores não sejam atiradas senão por um público que lhe passou incólume. Será apenas a dramaturgia?…

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Estilo é abundância em recursos expressivos

O objetivo de todo grande artista deveria ser erigir, a longo prazo, um monumento complexo e multifacetado. Por isso artistas menores são os que, irritantemente, só fazem repetir os mesmos processos. Fazê-lo, a buscar ênfase numa mesma ideia, numa mesma impressão ou na evocação de um mesmo sentimento, não é, como alguns supõem, demonstração de estilo, mas evidência de horizonte criativo limitado. Estilo é expressividade, potência, concisão, ritmo… Estilo é abundância em recursos expressivos, exatamente o contrário da capacidade do artista em repetir à exaustão os mesmíssimos processos.

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O grande problema humano é o haver ou não propósito

O grande problema humano é o problema de sentido, o haver ou não propósito. E não são a vida e obra humanas senão a resposta. Essa simples questão ultrapassa todas as outras, atravessa a realidade nos mais íntimos detalhes. Já quando tudo parece bem, já quando a fortuna decide exibir-lhe o chicote, o problema resta evidente, sempre à espera de resposta: para quê? Pensando nisso temos, pois, a ferramenta necessária para medir-nos a dimensão, avaliar-nos a existência e decidir, sozinhos, o que devemos ou não fazer.

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O alter ego na literatura

Algumas personagens literárias tiveram a felicidade de serem classificadas pela crítica como alter ego do autor. Outras já nasceram agraciadas com o selo proveniente do próprio mestre que lhes pariu. Alter ego… epíteto mágico capaz de dotar qualquer personagem de uma profundidade imediata, incutindo-lhe os passos com o peso da vida real. Engraçado! Não consigo pensar em literatura que não contenha, em grande medida, o peso da realidade do autor. A mim é simplesmente impossível imaginar um escritor a escrever abrindo mão das próprias impressões sobre a vida, das suas experiências, dos próprios julgamentos sobre si e sobre os outros, dos detalhes da existência que só ele nota, das observações que arquiteta sobre o meio em que vive. Se está a pintar um ambiente, pois tomará como base um ambiente que já presenciou ou imagina; se está a descrever um caráter, pois irá servir-se dos exemplos que a vida lhe concedeu. Sensações: o simples fato de imaginá-las em profundidade é, também, senti-las, e não é possível julgar que o autor esteja imune aos sentimentos que ele mesmo evoca. Como saberia descrevê-los, não fosse capaz de senti-los? Assim, o alter ego, termo de múltiplos sentidos, se pode, em psicologia, expor um interessante e complexo desvio de personalidade, em literatura normalmente expõe uma personalidade obcecada consigo mesmo: o autor.

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