Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja… a literatura espanhola deu-me leituras memoráveis. Nenhuma, contudo, provocou-me sentimento parecido ao que experimentei após o contato com Unamuno, o qual pareceu-me um familiar. Há, nas letras, casos assim: uma fronteira separa a admiração, a empatia, o apreço, deste sentimento inconfundível de identificação. E é sempre especial ver num autor um membro da própria espécie, cujas inquietações são aquelas intimamente sentidas, cuja expressão vocaliza algo que se poderia dizer. Raro, mas quando ocorre evidencia que não há individualidade intransmissível; sempre houve e sempre haverá semelhantes que, através da literatura, possam compreender.
“O tempo passou”
Nem todos tem a sorte de experimentar nesta vida a pedagógica sensação de que “o tempo passou”. Esta, variável nas circunstâncias, costuma apontar as consequências de se ter postergado uma decisão. Contudo, há vezes em que vem demonstrando, de maneira muito clara, que efetivamente se decidiu. Isso se dá com aqueles que, depois de certa idade, observam os velhos conhecidos, alguns dos quais, até ontem, eram próximos, e percebem que todos eles tomaram um caminho, aceitaram o que a vida lhes oferecia, fizeram escolhas, prolongaram a obra de seus pais. São poucos os que podem experimentá-lo, pois são justamente os que não agiram conforme o esperado, transgredindo o curso natural da vida, rompendo com o padrão. Então, “o tempo passou”: já não se pode voltar atrás, nem integrar-se novamente no costume; decidiu-se sem o perceber. E quão rápido se dá tudo isso! Agora, tudo fica muito claro, e o afortunado que o experimenta pode, enfim, assumir para sempre a sua decisão.
O sofrimento é muito bem distribuído
É preciso ter compaixão porque, como diz o budismo, o sofrimento é muito bem distribuído, e quase nunca se conhece aquilo que motiva a ação. Julga-se por automatismo, e raramente se reflete na aptidão ao julgamento, a qual inexiste quando fundamentada em meras convenções. O homem não é nada. Beneficia a si mesmo, e não ao próximo, quando tenta compreender. E quando não compreende, alguma cosia pode ganhar tendo pena; nenhuma com a condenação.
Todo planejamento de longo prazo…
Todo planejamento de longo prazo envolve a aceitação do sentimento nem um pouco ameno que seguramente brotará durante o processo, e parecerá fazer de tudo para que o plano seja logo abandonado, uma vez que a meta se encontra muito distante e talvez seja melhor empregar-se em algo mais gratificante. O pior, sem dúvida, é quando o planejamento não almeja senão criar condições para que um outro plano seja executado, e este outro, somente, parece ter verdadeiro valor. Aqui, sente-se todo o peso do universo, bloqueador de possibilidades, injusto e opositor; sente-se doer a estagnação aparente, a impotência perante o mundo, a incapacidade de fazer algo efetivo para acelerar o processo. E assim brota uma terrível frustração. Contudo, avançando-se mentalmente no tempo, visualizando o objetivo concluído, é possível munir-se da certeza de que tudo terá valido a pena. Mas é preciso, antes de tudo, inteirar-se do esforço requerido, pois nem todos estarão dispostos à suportar os dias ruins.