A vida fica muito mais prazerosa e interessante quando se aprende a colecionar, desenvolver e preservar um repositório de bens que o dinheiro não compra. Não é necessário que seja tão grande; basta que bem cultivado, que regularmente cultivado, e tem-se um estimulante novo motivo para acordar.
Quando se tem alguma vivência…
Quando se tem alguma vivência com apostas e cassinos, e se conhece por experiência própria o ambiente, as sensações e os tipos que costumam rodear uma roleta, as cenas análogas em Dostoiévski, quer em sua ficção, quer em sua biografia, são apreciadas em um novo patamar. O Dostoiévski que teorizava e fazia anotações seríssimas sobre estratégia e probabilidade é uma das figuras mais fascinantes que se pode encontrar num cassino. Não há como não empatizar, e como não se divertir ao vê-lo imerso nesta batalha feroz entre o raciocínio e o sentimento, lutando por delinear algumas conclusões. A vontade é querer tê-lo como amigo. E talvez não haja traço que demonstre mais claramente a coragem e a sinceridade que residiam em seu coração.
Dez anos de estudo independente…
Dez anos de estudo independente bem estruturado colocam o estudante acima de qualquer professor universitário brasileiro que não tenha sido, também, um bom estudante independente. Não faz diferença a área de atuação: a academia não forma, sozinha, intelectuais dignos do nome, e não lhes confere a integração necessária do conhecimento especializado no conhecimento geral. As razões para tal podem ser debatidas, não o fato escandaloso de que a especialização o mais das vezes restringe o horizonte intelectual ou, antes, de que os especialistas se mostram míopes para qualquer coisa que extrapole sua restrita área de especialização. É curioso porque, em tese, não há erro estrutural aparente: a especialização só é possível após a graduação. Mas esta parece insuficiente, se não perniciosa, e não produz graduados prontos para se especializar.
Para aqueles de temperamento semelhante…
Para aqueles de temperamento semelhante, os dias passados como Bernardo Soares são tão satisfatórios que é impossível não ansiar por dias sempre assim. Do anseio, contudo, brota a semente do desgosto, uma vez que não é possível tê-los sempre. Às vezes, nem sequer é possível tê-los. E quando se permite o prolongamento da falta, a mente, recordando da sensação indescritível da placidez fecunda, criadora, imaginativa, lamenta a impossibilidade de produzi-la quando quer. É preciso agir. Mas seja eternamente bendito o senhor Bernardo por nos ter ensinado uma rota segura para a satisfação!