A construção, de Franz Kafka

Talvez seja A construção a obra mais forte de Kafka. Neste conto, conciso e potente, Kafka explora verticalmente o desespero, em técnica semelhante à utilizada em O processo, porém atingindo o cume em pouquíssimas páginas. Dá-se o seguinte: um rato constrói, em trabalho de uma vida, a própria moradia (a construção). Precavido, cauteloso, elabora diligentemente uma estrutura que o proteja de invasores. Pensa em todas as possibilidades, defende-se de todas elas, estruturando assim um plano construtivo extremamente complexo. O local é a primeira das precauções: visando a tranquilidade, seleciona um lugar calmo, afastado do movimento. Mas pode algum lugar ser afastado o suficiente para que ninguém jamais o encontre? Difícil… de qualquer forma, não há essa certeza. Então se faz necessária uma camuflagem na entrada da construção; assim, mesmo que possíveis invasores se aproximassem, não perceberiam a porta da morada. Mas e se percebessem? E se, por uma única vez, um invasor a notasse e adentrasse a construção? É um risco imenso, que comprometeria tudo. Um único invasor tem poder para destruir o trabalho de uma vida! Assim, é necessário um mecanismo de defesa após a entrada… Raciocinando dessa maneira, imaginando situações sempre possíveis, temendo o risco e desejoso de eliminar em totalidade a possibilidade de invasão, o rato constrói um labirinto gigantesco, dividido em seções, repleto de corredores e encruzilhadas, beirando o impenetrável. Entretanto, a tranquilidade não vem. Obsessivo, o rato passa a imaginar situações cada vez mais improváveis. Põe-se de fora da construção, passa a monitorá-la e a fazer anotações. Imagina que, quando a buscar alimento, pode ser visto: elabora um plano de saída e entrada na morada. Quando, exausto e ainda indeciso, decide dar-se um descanso. Adentra a construção e cochila. Ao acordar, porém, passa a ouvir um ruído. Pequeno, sim; mas é necessário saber de onde vem. Seria uma ameaça? É preciso averiguar. Mas nosso rato construiu em torno de si um labirinto interminável, gigantesco, e o trabalho de inspeção levaria dias, talvez semanas! Por enquanto, somente a incerteza: pode não ser nada, mas pode ser o fim. O rato desespera-se, já não é possível a tranquilidade; o ruído continua, já não é possível saber de onde ele vem. Assim Kafka, com maestria incomum, apresenta-nos um personagem que, para defender-se uma ameaça incerta, em razão de um temor constante e insuperável, dedica a vida para construir um mecanismo de defesa, dedica a vida em busca da paz. Encontra, porém, o terror, a descrença: em seu mundo, a paz é impossível, a ameaça é um ruído constante e seu edifício estará sempre prestes a desabar.

____________

Leia mais:

Mais linhas sobre o amor…

O que de praxe chama-se de “amor” exige, obrigatoriamente, uma atitude ativa por parte do amado. Isso a mim é tão óbvio que às vezes me pergunto onde está a falsificação: se na palavra, se no conceito, ou se precisamente essa geração subverteu o sentimento que por séculos denominou-se “amor”. O amor moderno, sobretudo, apresenta-se como necessidade, carência de ser alvo de um esforço alheio, de sentir-se valioso, acompanhado, afagado por alguém que se compromete a agradar. Se o amado toma-o a apatia, pois que o “amor” desbota. Mesquinho esse amor não literário, cuja supressão — seja pela distância ou pelo rompimento — não machuca senão pela constatação da falta dos prazeres (efeito) gerados pela atitude ativa do amado… Sei, sei… exagero, mas como disse: em minha parca e breve experiência, jamais vi amante que amasse uma árvore, muito menos uma pedra…

____________

Leia mais:

Amor: ressalto do egoísmo

Em minha limitada e breve experiência, jamais vi nada que se aproximasse à concepção altruísta do amor. Pelo contrário, os exemplos que a vida tratou de me prover sempre evidenciaram o amor como um ressalto do egoísmo. Mais: identifico facilmente o amor quando o vejo convertido em ódio, em processo naturalíssimo, quando o orgulho, ferido, prescinde dos escrúpulos e mostra-se em máximo vigor.

____________

Leia mais:

Liberdade ou escravidão?

Raia a segunda-feira. O sujeito acorda, cedo, e dirige-se o trabalho, onde lhe passa o dia. Torna à sua casa, exausto, onde lhe restam poucas horas antes de dormir. No dia seguinte, repete a rotina, e depois e depois, a esperar no fim do mês um salário. Finais de semana: se o dinheiro sobra — ou falta, — é hora de empregá-lo a obter algum prazer. Passa-se um, dois, vinte anos, e o sujeito permanece na rotina, já ansioso pelo dia em que o Estado lhe pagará as despesas mensais. Pergunto: a liberdade, se em doses homeopáticas, não seria a escravidão? Ou ainda: não se perceber escravo não seria, em essência, patologia cerebral? De qualquer forma, reconheço: é melhor que tudo fique como está, seja pela placidez da rotina, seja pela escassez de antidepressivos no mercado.

____________

Leia mais: