Imprecisão dos textos bíblicos

Há um argumento extremamente irritante na refutação dos textos bíblicos: a precariedade no processo de reconstrução e transmissão dos textos antigos. Ora, se considerarmos que os métodos de transmissão eram precários a ponto de comprometer a autenticidade do que foi escrito — e tivermos o mínimo de coerência, — então teremos de atirar no lixo tudo quanto foi produzido na Antiguidade; logo, estaremos proclamando a falsidade de, para citar um único exemplo, toda a obra de Aristóteles. Creio seja absurdo acreditar na falsidade do que foi escrito  e repassado à luz de milhares de testemunhas ao longo do tempo, em absoluto foco de atenções: para tanto, será forçoso acreditar na ação conjunta de muitos homens de distintas gerações em prol da falsificação. Isso, a mim, não é senão uma ofensa covarde à honrosa iniciativa de tantos ao longo dos séculos a fim de preservar o conhecimento humano; se procedemos desta forma, acabaremos por considerar, rigorosamente, inválida toda a produção cultural que não a da modernidade.

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Amar e ser amado

“Amar e ser amado”: eis o capitalismo aplicado às relações afetivas, dando-nos mostras de seu imenso vigor. Eu poderia dizer: só ama quem não exige nada em troca, ou ama-se justamente por nada esperar. Mas como soaria ultrapassado! Hoje é tudo um intercâmbio: “Gero valor, pois quero logo minha retribuição!”. E é ingênuo achar que as permutas não se apliquem a tudo, que o maior dos amores ou a mais ínfima das convenções se não sumarize numa relação de troca. Para tanto, basta um modesto exame interior…

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Contradizer-se voluntariamente

O grande artista tem, por obrigação, de contradizer-se. Pois a contradição — abominável palavra quando aplicada à arte… — não quer dizer senão que o artista deu vazão a manifestações opostas de sua personalidade. Se não se permite ambíguo, se não reconhece em si a dualidade, se não é capaz de elevar ao cume sentimentos opostos que obrigatoriamente hão de se manifestar em seu âmago, então é artista menor, amputado, ou desprovido de amplitude de alma ou simplesmente impotente, claudicante da expressão.

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A vida intelectual, de A. D. Sertillanges

A vida intelectual, de Antonin-Dalmace Sertillanges é, sobretudo, um livro prático: um manual destinado a todos aqueles que buscam estruturar uma vida que exceda a banalidade cotidiana. Digo de minha parte: quando, lá pelos meus vinte anos, deparei-me com esta obra, encontrei justamente o que precisava: a motivação e os meios para arquitetar um plano de estudos de longo prazo, reconhecendo a importância dos hábitos, da seleção das leituras, do recolhimento, em suma: da organização da vida para o progresso intelectual. E lembro-me o prazer em respirando aquelas belas páginas de Sertillanges, dotadas de serenidade contagiante, justificando, elevando e enobrecendo o trabalho intelectual. Sem dúvida, é livro para fechar inspirado, agradecido e motivado.

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