O cinema, a música e o teatro, em comparação…

O cinema, a música e o teatro, em comparação com as artes plásticas e a literatura, possuem a desvantagem de se verem contaminados de operários que se julgam, mas não são artistas. E daí nasce uma série de consequências que só podem frustrar aquele que pariu a criação. Deve ser angustiante para um compositor perceber possível fazer carreira de virtuose executando obras dos outros, e confrontá-lo com o cenário despojado das facilidades que a primeira opção oferece, caso opte por se concentrar em suas próprias composições. Mais angustiante deve ser acompanhar o reconhecimento de operários da música como artistas. Ao menos, da angústia nascerá a certeza de que sua arte só se faz solitariamente, e de graça. Daqui em diante, jamais confundirá a verdadeira com a falsa motivação.

Oito shots em dez segundos!

Acabo de assistir, por acaso, dez segundos de um filme lançado neste último ano. Conto impressionantes oito shots neste mísero intervalo, e imediatamente penso em Andrei Tarkovski. Segundo esse grande artista, a substância do cinema é o tempo e a função do cineasta é imprimir o tempo na tela. Segundo essa prudente visão da sétima arte, uma obra que sobrepõe alucinadamente oito shots em dez segundos é qualquer coisa, menos arte. Parece-me o cinema, assim como a música, de joelhos diante de um público incapaz da concentração. A obra — e talvez obra já nem seja a palavra adequada — precisa estimular, o tempo inteiro, a adrenalina, precisa entregar emoção instantânea e gerar expectativa para uma nova emoção no segundo seguinte, caso contrário, a atenção simplesmente dispersa, e o público passa a bocejar. Sem dúvidas, é esse um traço geracional, e parece cada vez mais difícil despegar-se desta terrível realidade moderna que se assemelha a este insuportável bombardeio de shots.

Um roteiro cinematográfico vale-se pela estrutura

De forma intempestiva, ponho-me novamente a escrever roteiros cinematográficos. O trabalho do momento, que começava a engatinhar, é interrompido. E não sei o que sentir. Perspectivas, tenho poucas, seja lá o que esteja criando. Mas a facilidade em cuspir páginas de roteiro salta aos olhos quando comparada à agonia da criação literária. O roteirista vê-lhe o trabalho avançar, todos os dias, e encontra manifesta satisfação. Um roteiro, a bem dizer, vale-se pela estrutura, pela eficácia na distribuição das cenas dentro de um formato predefinido e pela força na exposição de um arco dramático. O roteirista debruça-se na demarcação estrutural do texto: define o conflito, sua progressão ao longo da trama e seu desenlace; então o distribui em cenas, com posicionamento e extensão em conformidade com o arco dramático e o formato da obra. Depois é só formalizar ou, melhor dizendo, transformar o diagrama em texto. Com personagens bem definidos, os diálogos brotam com facilidade espantosa, em infinitas variações. Decerto, são eles em grande medida adaptáveis, substituíveis: o roteiro, que não é senão o esboço de uma obra, vale-se pelo próprio esboço. E eu, de artista, torno à função de diagramador.