A plena objetivação operada pela modernidade e a subsequente doutrinação das massas para essa peculiar maneira de encarar a realidade produziu indivíduos carentes de uma importantíssima faculdade mental. Adestradas a considerar proibidas determinadas hipóteses, as novas mentes já crescem com um défice de possibilidades, que lhes são arrancadas pela raiz. Cada vez mais parece óbvio que a maior miséria desta época é ter objetificado o ser humano, e portanto lhe destruído a dimensão transcendente, resumindo-lhe ao caráter limitado e corrompido da matéria comum. As consequências desta noite terrível do espírito humano vão da desumanização ao emburrecimento, da destruição cultural ao regresso moral, do caos ao vácuo que se lhe tornou característico. Como foi possível chegar a esse ponto? Mais uma vez, parece certo quando Tolstói diz que há circunstâncias históricas que parecem definidas por uma força maior — resta-nos, como sempre, o espanto e a hesitação no conjeturar os porquês…
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A queda obrigatória
Diz Mário Ferreira dos Santos, em Filosofia da crise:
Consideramos como um fator de degenerescência de toda a construção do ser humano, aquele momento em que ela começa a subir os degraus do absolutismo. Esses degraus podem ser expostos da seguinte maneira:
1) uma doutrina é considerada como certa e eficaz;
2) como a mais certa e eficaz;
3) como a única certa e eficaz.Ao alcançar esse terceiro ponto, toda e qualquer objeção é considerada herética. Não é mais possível, nesse momento, transigir com os adversários, porque a própria defesa da doutrina exige uma vigilância constante contra todos os opositores, e até contra partidários vacilantes, transigentes ou tíbios, e toda vacilação é uma ofensa aos princípios absolutamente VERDADEIROS, sobre os quais não se pode permitir o menor vislumbre de dúvida ou a menor suspeita.
E se essa doutrina ou sistema dispuser do poder físico, ela o exercerá inevitavelmente, empregando a força para combater opositores e partidários dúbios e vacilantes.
Não é possível descrever com mais precisão a práxis vigente no ocidente moderno. A prisão ideológica em que se meteu evidencia o zênite já atingido e a queda obrigatória. Tudo, tudo repetindo-se novamente… E este policiamento autoritário destes dias, como mostra Mário, não faz senão instigar uma reação contrária violenta, que acabará por destruir todos e cada um dos valores tidos como supremos pelos sacerdotes da intolerância. Tendo a inércia impossível, escalar degraus parece compulsório; mas, do topo, só há movimento possível para baixo.
A flor de pétalas negras
Exercitemos a imaginação: um homem, após muito meditar sobre o suicídio, após ponderar cautelosamente todo o tormento de que padece, conclui-o absolutamente injustificável. Busca um amigo, luzindo-lhe tibiamente a esperança de que há algo que não esteja enxergando, de que suas conclusões incorrem em erro desconhecido. O amigo dispõe-se, e começa a lhe falar sobre o cantar dos passarinhos. É possível, para o infeliz, não julgá-lo um insulto? Suponhamos, agora, um monge retornando a pé de longo retiro de silêncio. Uma senhora aborda-o na rua e diz estar receosa de que chova e molhe suas roupas estendidas no varal. Há, novamente, um contrate tão acentuado que parece oferecer o riso como única resposta. Pois bem: deste banalíssimo contraste, nasce uma flor de pétalas negras chamada misantropia.
As emissárias do bom senso
Tão abundantes e tão antigas são as narrativas que expõem minuciosamente a perversa e regular opressão operada pela maioria contra indivíduos isolados, desamparados, que padecem como mártires jamais desagravados pela história, que parece absurdo, ainda hoje, as maiorias serem tidas como emissárias do bom senso. Desta mentira clamorosa, seria de se esperar que os homens se livrassem, ainda que por necessidade ou pudor. Curiosamente, o contrassenso persiste e se fortalece. Como justificá-lo? Explica, Carlyle! como conciliá-lo com a tua teoria de sepultamento de mentiras? O que parece é que, neste mundo, a injustiça não faz senão trocar de máscara ocasionalmente.