Hoje, um imbecil sente a vaidade arranhada e, em vingança, age à socapa para prejudicar o outro, movendo contra ele uma campanha de ódio — isto é, incitando outras pessoas a odiá-lo; congregando uma maioria covarde. Há alguns séculos o ofendido, o verdadeiramente ofendido, podia lançar mão do desafio, requintando-o caso deixasse a escolha da arma a cargo do desafiado. Este, recusasse, assumia-se covarde e a honra do ofendido era automaticamente desagravada. O duelo era instrumento que atirava ofensores em péssima situação: o ofendido só tinha a ganhar. Perdendo o duelo, saia como corajoso; vencendo-o, tinha o prejuízo moral retribuído. Como tudo mudou! Nesta era de covardes, o duelo em condições de igualdade já tornou-se literatura: não há quem desafie e muito menos quem tenha coragem de aceitar um desafio. Naquele tempo, onde a possibilidade de um duelo era patente, as pessoas respeitavam-se mais.
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O poder é sempre o reflexo de uma relação de domínio
Se medimos o poder pela aptidão — disponibilidade de meios — para a corrupção da vontade ou ação alheias mediante a imposição da própria vontade, vemos que o poder é sempre o reflexo de uma relação de domínio. Se quebramos a relação e isolamos o lado dominador, analisando-o de si para consigo mesmo, notamos que tal poder é inútil e ordinário. O desejo de poder, na acepção vulgar, é sempre um desejo que foca as lentes no outro, na subjugação do outro, no fortalecimento perante o outro — e, por isso, abjeto. Desejar influência é demonstrar-se alguém que, não obstante a vaidade manifesta, reputa o outro em destaque na equação da própria vida — menosprezando-o, porém, como inconscientemente menospreza a si mesmo.
A sociedade tornou-se radicalmente mais cínica
Com a democratização do ocidente, o advento da imprensa e, especialmente, do marketing, a sociedade tornou-se radicalmente mais cínica e seus meios de opressão ainda mais perversos. O Estado fortaleceu-se como nunca e ampliou-lhe os métodos de controle social, assumindo o posto de Deus e travando guerra contra a manifestação do indivíduo, reduzindo-o a nada e taxando-o de criminoso caso se lhe oponha às imposições tirânicas e imorais. Tornou-se prévia a censura e velada a condenação, foram anulados pela psicologia de massa os mecanismos de defesa — tudo isso operado por uma autoridade assentada sobre uma fundamentação falsa e hipócrita que só faz crescer. O cinismo e a mentira jamais foram utilizados com tanta eficácia como instrumentos de dominação e poder.
Se houver mesmo um inferno em que os hipócritas padeçam…
Se houver mesmo um inferno em que os hipócritas padeçam, que saiba a sociedade moderna onde irá aventar seu verbo e implantar suas convenções. A hipocrisia é a substância desta dita era do marketing e está arraigada no âmago de sua fundamentação. Sem hipocrisia, já não há relações sociais: é por ela que o homem moderno exibe-lhe a inteligência e a boa educação. “Era do marketing”, e hipocrisia é uma bela versão portuguesa de marketing. O mundo seria mais honesto se o bom trabalhador dissesse: “Trabalho com gestão de hipocrisia”. Mas é claro que jamais o fará. O bom trabalhador não pode sequer ser sincero com os companheiros de trabalho, com os vizinhos, com os amigos, com a família… Será que o inferno comporta tanta gente? Por outro lado, dois caminhos há para o não hipócrita moderno: (1) operar um aniquilamento total das relações sociais ou (2) viver normalmente, sob a pena de ser amplamente odiado e malquisto em todos os círculos, senão desempregado ou pedinte. Fora disso é história…