A misantropia é um dos traços mais salutares ao raciocínio que se tem notícia

A misantropia é um dos traços mais salutares ao raciocínio que se tem notícia. Ser misantropo envolve um esforço contínuo e desafiador. Quando se é misantropo, o sujeito torna-se um estrategista por necessidade. Aprende psicologia para entender a mente dos outros, para então lhes prever o comportamento e ser capaz de evitá-los. Tem de ser especialista em estímulos emocionais para saber não suscitar nunca nenhum em ninguém. O misantropo sabe que sua sagacidade será inversamente proporcional ao desconforto proveniente das relações sociais; portanto, quanto mais sagaz, mais plenamente alcançará o objetivo de reclusão. O interessante é que o estímulo nunca cessa, o cérebro do misantropo é instigado o tempo inteiro e jamais descansa, posto sempre haver a possibilidade de alguém interromper-lhe a solidão e solicitá-lo para qualquer coisa. É como um jogo interminável, extremamente salutar à inteligência e que, mais do que qualquer outro jogo, atiça a vontade de ganhar.

Ganhando a simpatia das pessoas

Opiniões são, sobretudo, desagradáveis. A nível individual, é escusado dizer: são as amarras, os grilhões do pensamento. A nível coletivo, quem as suporta? Nunca uma opinião é tão oportuna quanto seria deixar de dizê-la. As pessoas gostam de ser escutadas, não de escutar. Por isso é tão fácil lhes angariar a simpatia: basta relacionar com elas em silêncio, isto é, ouvi-las sem nada dizer. Se isso é possível, ou até suportável, aí é outra conversa…

O sujeito lê o jornal e quer dizer ao mundo suas opiniões

Impressiona o interesse do indivíduo — e não sei se deveria dizer desgaste — por aquilo que lhe escapa totalmente ao campo de ação. O sujeito lê o jornal e quer dizer ao mundo suas opiniões. Discute com o vizinho, revolta-se na divergência, atrita com quem quer que lhe conteste. Então compra mais jornais, busca informar-se mais para, na próxima ocasião, aniquilar os adversários de um debate que jamais levará a lugar algum. Despende tempo e nervos no inútil. Lê, para cada página de jornal, uma a menos de Shakespeare. Não compreende a própria insignificância, ignora o caráter nocivo da própria postura. Mas prossegue, é claro, em nome de sua maior virtude: a vaidade.

A tendência moderna de produzir “especialistas”

Há, a nível mundial, uma tendência escancarada a produzir “especialistas”. A princípio, é natural que todas as áreas apresentem um aprofundamento e que estudos cada vez mais detalhados sejam disponibilizados ao estudante comum. Entretanto, a pergunta: e o conjunto? e a ligação entre áreas distintas do conhecimento? e a visão panorâmica, abrangente? Digo e penso em duas coisas. Primeiramente, na monumental História da literatura ocidental de Carpeaux, uma obra que, quanto mais a analiso, mais a considero valiosa: nela, que jamais poderia ser classificada como “superficial”, mais de vinte séculos de cultura estão magnificamente concatenados. O estudante vê brilhar diante de si o elo impossível e conquista, em relativamente poucas páginas, uma visão que o permite transitar pelas mais diversas correntes de pensamento. Uma obra deste tipo é o oposto da tendência intelectual vigente. Em segundo lugar, penso nos estudantes. O interesse múltiplo, o estudo diversificado não costuma fazer carreiras: cresce quem se torna um “especialista”. Tornando-se um “especialista”, o estudante flerta com a possibilidade de conhecer uma área e ignorar todas as outras, ignorando, também, a aplicabilidade real do próprio conhecimento. Muito bem! Que vale mais, ou para que serve o estudo? Parece-me, nas respostas, residir a principal distinção entre os intelectuais modernos.