Há entre o misantropo e o seu tempo uma distância intransponível que se revela a cada tentativa de aproximação. O misantropo que abra um romance contemporâneo dificilmente conseguirá finalizá-lo, posto que será tomado gradativamente de um sentimento de repulsa que o forçará atirá-lo para longe, caso não queira submeter-se a uma tortura da qual nada tem a ganhar. De quem é a culpa? Certamente, não do romancista, que o mais das vezes não está senão cumprindo parte de sua obrigação para com o futuro ao descrever minúcias e particularidades. Mas não desce! Não há solução! Sua obra a cada passo, a cada cena suscitará sentimentos ruins que uma hora sufocarão o animal inadaptado, e este terá de abandoná-la, se possível esquecê-la. O misantropo é alguém deslocado no espaço e no tempo.
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O início da vida adulta
O início da vida adulta é uma fase crítica porque o jovem se vê pressionado a tomar decisões de consequências duradouras sem que se tenha decidido com firmeza sobre elas ou, nalguns casos, sem que tenha personalidade o suficiente para assumir as próprias decisões. A isso soma-se o caso frequente de dependência financeira, que acaba acarretando uma submissão a conselhos e opiniões. Assim, quase sempre cede à suposta “sabedoria dos mais velhos”, quando esta em verdade é-lhe útil apenas enquanto esteja em conformidade com aquilo que verdadeiramente deseja para si. Do contrário, tais conselhos serão somente o empurrão ao abismo que lhe causará o mais severo arrependimento que já experimentou — arrependimento, porém, necessário para que amadureça, e perceba só valer a pena uma vida em que as consequências sofridas são frutos de escolhas pessoais. O divertido, em suma, é que na maioria dos casos bastariam uns poucos anos a mais para que as decisões fossem tomadas de maneira mais sensata; mas não, por algum motivo é preciso tomá-las precipitadamente, talvez por ser o próprio erro fundamental.
É notório que as chamadas predisposições…
É notório que as chamadas predisposições temperamentais se apresentam quase sempre ancoradas na experiência, retirando, portanto, boa parte do sentido que parecem sugerir. Muito do que diz a psicologia sobre o condicionamento ao meio e seus impactos a longo prazo é decididamente verdadeiro, e é indiscutível que o ambiente interfere e molda, sendo seu efeito proporcional ao tempo de exposição e intensidade do contato. Assim, queira-se ou não, dele se carrega algo e, exatamente por isso, o distanciar-se é fundamental em caso de que esse algo se incline ao indesejável. Bloquear-se e criar barreiras psicológicas para se lhe evitar a influência é possível e, em casos extremos, imprescindível; mas uma experiência, ainda que dela se extraia frutos, não pode, a despeito de quanto se queira, ser simplesmente apagada.
Uma pessoa com alguma educação…
Uma pessoa com alguma educação não interrompe outra ao telefone; mas interrompe, sem recear por um instante, uma que está a pensar, tão logo tenha o menor e mais insignificante impulso comunicativo. Disso só se pode concluir que o pensamento é uma doença, e que pessoas normais não estão acostumadas a ele; caso contrário certamente saberiam que um “com licença” ou um “me desculpe” não amenizam em absolutamente nada o violento e brusco corte que operam no fluxo das ideias, que se vão podendo jamais retornar. Desse incomparável inconveniente não cuidaram nem a moral, nem as convenções: não há freios de nenhuma espécie para aquele que se sente no desejo de abordar um desconhecido; muito pelo contrário, é o desconhecido que parecerá mal-educado caso não conceda atenção àquele que a exige. E, finalmente, quanta satisfação ao vê-lo pela primeira vez notado por Karl Kraus! É assunto para um livro inteiro e, mesmo assim, parecem todos acostumados a ouvir novidades quando vão à barbearia; a serem abordados insistentemente por qualquer um que se apresente com o intuito de vender. Muito bem, muito bem!