Se, por um lado, é muito útil ao artista não se afobar e guardar algumas de suas inspirações para que possa melhor trabalhá-las, por outro tem de desenvolver um senso muito apurado para reconhecer os seus estados de espírito e ideias excepcionais, tem de saber, em suma, quando é imprescindível aproveitar o momento. Há ideias que, lamentavelmente, passam, e estados de espírito que só se experimenta uma vez. A idade sobretudo o demonstra. O escritor experiente, por mais experiente que seja, não pode retornar ao passado para escrever. Nada há de mal nisso, exceto se, por demasiada cautela, perceba nele uma oportunidade que se perdeu.
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O escritor deve sempre se lembrar…
O escritor deve sempre se lembrar do exemplo de Dostoiévski que, sendo o mais ferrenho crítico do niilismo, é tido pelos niilistas como um dos seus. Isto só se dá porque Dostoiévski coloca-se inteiramente sob o ponto de vista de seus personagens, de forma que, quando estes se manifestam, são indistinguíveis as ideias de seu criador. Mais que esforço, atingir tal grau de manifestação artística exige uma predisposição: aquela que busca, sobretudo, fazer justiça ao objeto retratado; aquela que, numa palavra, chamamos de sinceridade.
Talvez o problema mais intrincado que se coloca…
Talvez o problema mais intrincado que se coloca ao romancista brasileiro é o retratar, ou não, a linguagem coloquial. Assumindo esta necessidade, dá-se o complicadíssimo problema da medida, para o qual não parece haver solução segura. Quer dizer: o abismo que há entre o português falado no Brasil e a língua culta é tão imenso, mas tão imenso, que não há conciliação possível, mas traições toleráveis, ou quiçá necessárias, que se intercalam no modelo escolhido. A linguagem culta, ante a coloquial, é no português brasileiro a artificialidade e o ridículo. Já a linguagem coloquial não se insere no português formal senão como um conjunto infinito de erros ortográficos, prosódicos, sintáticos, os quais se retratados com fidelidade tornam o idioma quase irreconhecível. Como, então, resolver? O romancista, se efetivamente enxerga a situação que narra, se sentirá coibido a colocar na boca de um personagem um discurso para ele inconcebível. Ao mesmo tempo, é romancista, não orador; maneja, pois, — e oxalá ame, — a língua e a tradição escrita. De tudo isso, há apenas uma certeza: o mais fácil é não ser romancista no Brasil.
Há um conselho que muito agradaria os leitores…
Há um conselho que muito agradaria os leitores, mas jamais foi dado a escritor algum, e que consiste no seguinte: o autor cujas páginas dos livros que tem não bastam para satisfazer sua necessidade de comentá-los faz bem destinando o excesso, ou o todo de seus comentários a uma obra concebida especificamente para tal. Fazendo isso, evita-se, primeiro, que tais comentários se interponham numa narrativa que nada tem com eles, que a interrompam e a atrapalhem. Em segundo lugar, tal obra, existindo, fará bem ao próprio autor, que terá nela um estimulante depósito de comentários, caso não disponha de um amigo ou uma pessoa real qualquer para exercer esta função.