Nunca errará o escritor que se concentrar naqueles temas propriamente seus, ainda que deixe de lado outros tantos que poderiam tornar-lhe a obra mais abrangente. Por essa abrangência, às vezes paga-se o preço da dispersão. E como são notórios os trechos em que o escritor se manifesta com toda a intensidade de que é capaz, faz bem que neles se concentre, que em torno deles construa o que tiver de construir. Trabalhando desta maneira, mesmo os excessos passarão diminuídos pela sinceridade que naturalmente abundará numa obra que, conscientemente, alvejou o essencial.
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A técnica do romance moderno…
A técnica do romance moderno, que expande as cenas, apresentando-as com maior riqueza de detalhes e explorando as minúcias interiores e exteriores dos acontecimentos, tem lá suas vantagens. Mas, às vezes, tem-se a impressão de que tal detalhamento enfraquece o enredo. Se tomamos como exemplo os contos populares antiquíssimos de algumas civilizações, vemos que, muitas vezes, a narrativa varia, os detalhes variam, podendo até haver mais ou menos cenas a depender da fonte; não varia, contudo, a sequência lógica da história, e nesta reside a sua força. O curioso é o seguinte: estes contos antigos, mesmo se narrados esquematicamente, desprovidos de artifícios literários, produzem praticamente o mesmo efeito; já um romance moderno, se desprovido das particularidades do estilo do autor, transforma-se noutra coisa bem diferente. As narrativas antigas facilmente podem, como foram e são, ser contadas oralmente sem que muito se perca, algo impossível de se fazer com um romance moderno. Este, só pode contá-lo o autor, e pelas linhas que já escreveu. Talvez, isso signifique que a história nunca ganhe verdadeira autonomia, o que pode ser favorável ou não.
Às vezes, mesmo um renomado picareta…
Às vezes, mesmo um renomado picareta, mesmo um ideólogo de quinta categoria, mentiroso e mal-intencionado, pode dar à luz páginas muito interessantes quando descreve suas experiências pessoais. A menos que também as falsifique, conseguirá experimentar na escrita exatamente aquilo que experimenta o grande escritor. E convencerá. Há nisto algo de especial: a escrita oferece a todos, sem distinção, idênticas possibilidades — e para bem aproveitá-las, basta tratar com seriedade o ato de escrever.
Já se disse que o escritor é aquele…
Já se disse que o escritor é aquele para quem a vida não basta. E, sem dúvida, satisfazer-se com a experiência é um elemento variável da psicologia individual. O mais das vezes, a vida que se leva é medíocre, desprovida de eventos se não marcantes, sobressalentes à experiência comum. Alguns não podem aceitá-lo, quer pelo brio, quer por uma vontade inata de mais conhecer e mais experimentar. Aqui, sai a literatura não como consolo, mas como necessidade, como completando as inumeráveis lacunas da experiência. Sem ela, parece a vida insuportavelmente desinteressante. Novamente, trata-se de uma questão de psicologia individual, e jamais a entenderão aqueles que não apresentam semelhante disposição.