O embate entre vaidade e consciência

Algumas naturezas chegam a impressionar pela ausência completa do embate entre vaidade e consciência. Talvez pela própria tibiez da consciência, o que justifica vê-la absolutamente ignorada pelas correntes mais populares da psicologia. Em alguns, ela parece simplesmente se não manifestar. Mas incrível pensar em alguém que, nem uma única vez na vida, orça a mesquinhez da própria conduta, dos motivadores da própria “vontade”. Fazê-lo e não proceder com a condenação seria compreensível, mas o fato é que, na maior parte das pessoas, não há o menor vestígio do conflito.

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Uma confissão, de Liev Tolstói

Engraçado como basta uma única página para perceber-se diante de uma alma grandiosa. Qual a diferença do grande escritor para o escritor mediano? Deixando de lado a estética, o grande escritor aborda as grandes questões da vida. E Tolstói, neste ensaio denominado Uma confissão, mostra por que está entre os maiores escritores de todos os tempos: reconhece e encara de frente os maiores problemas humanos. Por que viver, se a vida trata de destruir tudo quanto existe? Por que realizar qualquer esforço se o final é invariavelmente o nada? Como não considerar a vida como o mal supremo, posto desaguar sempre em doença e mortificação? Há alguma coisa que a morte não destrua? Como aceitar o fado, ou antes: como interpretá-lo? Essas e outras questões preenchem as poucas páginas desta obra magnífica, como tudo o que tive contato proveniente da pena desse gênio. Basta uma página, repito, uma página de Tolstói para entender que a grande literatura jamais será somente sobre contar uma boa história — isso também faz a literatura shallow. A grande literatura é sequiosa da réplica à pergunta atormentadora: Por quê?

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Realidade e sonho

Inclino-me a pensar que o contentamento humano brote do encontro entre realidade e sonho. Digo e penso imediatamente em D. Quijote. Há uma fronteira sinuosa, aparentemente muito mal definida, que une o real ao imaginário e parece progenitora da satisfação. O sonho, por si só, afigura-se-me qual impotente se desprovido de ligação com o concreto. É necessária uma ponte, um elo, ainda que sob a forma da esperança, do “irá acontecer”. De outra forma, o prático rapidamente esmaga o imaginado, gerando desalento e vergonha. Isso, é claro, em mentes saudáveis. Por outro lado, a realidade será sempre débil porquanto insuficiente: necessita, também, de um amplificador, algo que embeleze e tonifique a crueza do concreto. E isso, ainda que de forma sutil, não é senão fantasiar o real. Por isso intriga-me até que ponto D. Quijote não viveu o que sonhou, ou até que ponto viveu efetivamente. Louco ou mestre? Falta-me a resposta…

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O mato americano e o mato brasileiro

Não nego: lendo Thoreau, convenci-me de que meu lugar é o mato. E a tentação de largar tudo e partir para a selva foi patente. Porém, lembrei-me de ter lido, também, o enorme Gilberto Freyre. E que diferença para o mato americano e o mato brasileiro! Dois anos na selva, banhando-se no rio, e Thoreau não é mordido nem uma única vez por uma espécie peçonhenta, não tem a plantação assolada por pragas, não sofre com a infestação de mosquitos ou formigas… Assim, o mato realmente parece a paz. Pergunto: quantos se atreveriam a caminhar em mata fechada, à meia-noite, sem lanterna, a replicar Thoreau em solo brasileiro? Talvez eu seja um covarde… De qualquer forma, continuarei sequioso de meu mato, ainda que sua configuração envergonhe profundamente o filósofo…

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