O insuportável “eu”

Espero, senão nestas notas, jamais grafar essa palavra insuportável — “eu” — em primeira pessoa. Julgo engraçado como, ainda aqui e exatamente agora, conjugo os verbos na primeira de forma repetitiva, quando ninguém menos que eu mesmo nutro repugnância categórica por essa obsessão moderna com o próprio ser e julgo-me a singularidade mais insignificante de todo o universo. Entretanto, cá estão as justificativas e a confissão: (1) o “eu”, nestas notas, nunca será senão um apelo expressivo rasteiro, quando o objeto destas linhas é inteiramente outro — confessando, espero expulsar a palavra intrusa; — (2) se um dia, e imploro que não aconteça, mas se um dia o “eu” tomar o caminho inverso e passar a ocupar o centro destas notas, então me terei esgotado enquanto artista e enquanto explorador de questões que extrapolam minha realidade mesquinha. É esperar para ver…

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O cume é vizinho natural do abismo

Há um notável problema proveniente da ascendência e resume-se basicamente nisto: o cume é vizinho natural do abismo. Poderia formular de outras maneiras, dizendo que quando se chega ao topo, o movimento só é possível para baixo, ou que a distância do pico ao precipício é qualquer deslize… Penso, agora, em Julien Sorel, mas os exemplos são inúmeros. Por que, exatamente, o destaque nos torna tão vulneráveis? Inveja? Pelo desejo que, por sua natureza, nos expõe? Não posso deixar de notar o potencial destrutivo da ascensão, as provações que esta normalmente exige e seu prêmio enganoso, senão injusto. Racionalmente, a conclusão se impõe: talvez o mais sábio seja deixar imediatamente de escalar.

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O grande estilo exclui também o que é agradável

Palavras de Nietzsche:

A grandeza de um artista não se mede segundo os “belos sentimentos” que ele desperta: só as mocinhas acreditam nisso. Mas segundo a intensidade que emprega para atingir o grande estilo. (…) Não desejaria desapreciar as virtudes amáveis, mas não se concilia com elas a grandeza de alma. Nas artes, o grande estilo exclui também o que é agradável.

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Injustiças sem fim

No estudo da história, mais impressionante que as conquistas, as guerras, o desenvolvimento das civilizações  e todo o resto, é a sucessão quase que inacreditável de injustiças cometidas contra os grandes homens. Minoria são os que, honrados, valorosos, angariaram para si uma memória digna da própria obra. Pior que as perseguições que alguns tanto sofreram em vida, pior que o desprezo, a conspurcação pública, a pobreza, a vida que se lhes apresentou como uma sequência de frustrações, desgostos, um após o outro, amontoando-se e avultando como fossem provações, pior que tudo isso é, após a morte, caírem em olvido, senão difamados, quando já não podem responder ou, ainda: provar como a raça humana lhes é indigna.

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