Os velórios ensinam que o sucesso morre antes da memória, e que, mesmo em vida, são muito diferentes os graus de satisfação que se pode obter. Num velório, diante da carne exaurida, revelam-se ainda vivas as marcas deixadas pelo falecido na mente de quem o conheceu. E se percebe, havendo velórios distintos, haver o cultivo, e o desfrute, de distintos bens. A morte apenas escancara o gratificante que houve, se duradouro ou perecível, se egoísta ou compartilhado, se as marcas deixadas foram boas ou foram más. O falecido, como diz o verso de Mallarmé, converte-se no que é; e é por esta forma final que se pode avaliar o sucesso e a validade da convergência simultânea de tudo aquilo que se passou a vida a colecionar.
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Uma das coisas mais belas no sistema oriental…
Uma das coisas mais belas no sistema oriental de mestre e discípulo, pelo qual o conhecimento vai transmitido individualmente numa linha sucessória que remonta a tempos imemoriais, é isto de o mestre sobreviver e viver no discípulo, sem anular-se e sem se sobrepor à personalidade do discípulo. Vamos lendo as histórias, vamos nos impressionando com as realizações de todos os mestres, e parece que nunca nos dá na cabeça a ideia de compará-los, a fim de determinar qual deles foi maior. Não há rivalidade; mas há, sim, uma tradição que vive em todos eles, e continua se manifestando sob novas formas, em resposta a circunstâncias específicas, através de atos individuais.
Ensinar é, decerto, uma atividade muito prazerosa…
Ensinar é, decerto, uma atividade muito prazerosa, às vezes mais do que o próprio aprender. Contudo, é fácil torná-la frustrante: basta que o professor crie expectativas, ou melhor, basta que tente forçar o aprendizado. Leva um tempo para entendê-lo, e só então se pode desenvolver a resposta devida, que se resume a uma disposição sempre aberta, sempre bem-intencionada, mas que espera pelo sinal positivo antes de agir. Pacientemente, aguarda que o interesse se manifeste e, sabendo que tanto este como o resultado de seu ensinamento estão além do que controla, pode enfim desfrutar a experiência de ajudar.
Através da aparência fenomênica…
Através da aparência fenomênica dos livros de Kant, aprende-se que só é possível ter uma opinião sobre a aparência fenomênica de Kant, uma vez que o Kant em si não pode ser conhecido. Igualmente, a filosofia de Kant não pode ter senão sua aparência fenomênica apreendida, tal como um cachorro, uma geladeira ou uma equação. Agora, acontece o seguinte: a partir do momento em que se aceita esse preceito, tudo se justifica, salvo o estudo e, finalmente, a vida. É incrível como tenha podido haver exércitos de kantianos que viveram como homens comuns, isto é, que aceitaram essa fantasmagoria e permitiram-se uma morte natural. Em verdade, para isso só parece haver uma explicação, um tanto desabonadora para a filosofia de Kant.