Algo a que custa acostumar a mente…

Algo a que custa acostumar a mente a sempre ter em vista nas biografias é cotejar a grandeza de algumas personalidades com a absoluta falta de reconhecimento de tal grandeza enquanto viviam os biografados. Muitas vezes, a consagração póstuma rebuça esse contraste, e mal conseguimos imaginar o colosso, se não desprezado, caminhando pelas ruas como um homem comum. Mas é preciso tê-lo sempre em vista, e com fazê-lo aproximamo-nos muito mais da realidade que o circundava, visualizando melhor a sua verdadeira dimensão.

Há experiências inexplicáveis, cuja dimensão…

Há experiências inexplicáveis, cuja dimensão só é apreensível para aquele que as viveu em primeira pessoa. Uma dessas, sem dúvida, é a patifaria da modernidade. A quantidade de mentiras que, hoje, se ensina nas escolas, ou melhor, a quantidade de mentiras as quais os alunos assimilam não apenas como certezas, mas com veneração, é algo que homens de outras épocas poderiam compreender apenas superficialmente. Falsificações completas, como a história da Revolução Francesa, ou a biografia de figuras como Newton, Descartes, Maquiavel, ou o surgimento da chamada ciência moderna, ou a história da Inquisição, da Igreja Católica, da escravidão, e a lista não acaba, é preciso tê-las engolido e digerido muito bem para, anos depois, poder-se chacoalhar com o espanto devido ao vê-las incontestavelmente desmascaradas por uma pilha imensa de livros e documentos. Tudo mentira! Tudo, tudo, saturado de segundas intenções! Daí, então, sente-se o desprezo que a modernidade merece, e só um bom moderno é capaz de senti-lo.

Mais impressionante do que os feitos descritos…

Mais impressionante do que os feitos descritos na biografia de Milarepa é a caracterização perfeita da loucura como constituinte necessária da santidade. Só de imaginá-lo como retratado, um “esqueleto” de pele esverdeada, um “fantasma”, um miserável debilíssimo, vestido em farrapos… E mesmo assim notar-lhe a vontade pétrea, a abnegação total e a resolução que não cede perante as mais intensas e mais básicas necessidades. O que mais impressiona é que, após assimilar a razoabilidade da loucura, acaba-se constatando que loucos, em verdade, estavam todos os demais.

O mais interessante em toda biografia…

O mais interessante em toda biografia é reparar nas coincidências que não parecem coincidências, e embora frequentemente nada possamos fazer senão identificá-las, o seu conjunto parece sempre guardar algo de revelador. Há acontecimentos cuja explicação é cem por cento ociosa: o próprio fato diz mais do que qualquer possível justificação. E marcam, transformam, determinam, de forma que, às vezes, identificá-los ou não significa compreender ou não compreender.