De toda a infinita lista de defeitos…

De toda a infinita lista de defeitos que se pode apontar na arquitetura brasileira, se existir mesmo algo que atende por esse nome, talvez aqueles que mais se sobressaem pela originalidade são, primeiro, a absoluta ausência de traços comuns entre uma construção e a vizinha, traços comuns aqueles sem os quais arquitetura nenhuma do mundo pode produzir harmonia num ambiente; segundo, a ausência, também absoluta, de traços que evidenciem uma tradição arquitetônica, traços que, para além de estabelecer uma conexão com a história, quando replicados configuram os mesmos traços comuns produtores de harmonia. O resultado, em suma, é essa paisagem urbana horrorosa, que patriotismo ou estupidez de nenhuma espécie é capaz de defender.

A história brasileira é um campo fertilíssimo

A história brasileira é um campo fertilíssimo para a sátira. Mas quiçá, entre o inesgotável festival de ironias, nenhuma seja mais divertida que o lema positivista enfiado na bandeira nacional, em ato que viria a fomentar a antítese do próprio lema, o qual nunca, nem por um mísero decênio, viria a manifestar-se na nação como modelo ao resto do mundo. Muito pelo contrário: após a proclamação republicana, o que decerto não houve foi ordem, e muito menos progresso, degradando-se ambos perante o ocidente, de maneira que hoje, pouco mais de um século após a importação do fictício e malfadado lema, o Brasil é certamente muito melhor e mais fielmente representado por “desordem e atraso”.

Às vezes bate uma curiosidade de analisar…

Às vezes bate uma curiosidade de analisar a grade curricular de um curso de arquitetura, para tentar entender como foi possível essa regressão absoluta, indiscutível, escancarada nos resultados proporcionados pela evolução da técnica arquitetônica. A obsessão pelo baixo custo não parece suficiente para justificá-lo, posto não haver, mesmo nas cidades europeias, alguma em que a parte moderna seja visualmente superior à parte antiga. A arquitetura moderna é, resumidamente, mais feia e menos criativa. Que é isto, pois, que se ensina para que o profissional, com melhores recursos, produza algo expressamente pior?

O Brasil é o país onde a posteridade não redime

O Brasil é o país onde a posteridade não redime. Disso a historiografia dá provas irrefutáveis, especialmente a historiografia literária. O que há de bom não é lido — é como se não existisse. E o que circula, quando lemos, sentimo-nos diante de paupérrimos resumos esquemáticos que jamais fazem referência a vidas e obras de homens reais. Tais esquemas só conseguem perpetuar a incompreensão e propagar o desinteresse, e quando os analisamos pelas ausências, ou pelas inverdades, ou pela displicência, aí o que sentimos mesmo é vontade de desistir…