Vanitas, de Olavo Bilac

Outro belo soneto de Olavo Bilac:

Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,
Trabalha. A alma lhe sáe da penna, allucinada,
E enche-lhe, a palpitar, a estrophe illuminada
De gritos de triumpho e gritos de agonia.

Prende a idéa fugaz ; doma a rima bravia;
Trabalha… E a obra, por fim, resplandece acabada:
«Mundo, que as minhas mãos arrancaram do nada!
Filha do meu trabalho! ergue-te á luz do dia!

Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
Arranquei-te da Vida ao adyto profundo,
Arranquei-te do Amor á mina ampla e secreta!

Posso agora morrer, porque vives!» E o Poeta
Pensa que vae cahir, exhausto, ao pé de um mundo,
E cáe — vaidade humana! — ao pé do um grão de areia…

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Escravos do elogio

Sabendo do caráter corrosivo dos elogios quando direcionados ao artista vivo, não deixo de notar que estes aplicam-se mais frequentemente a uma pose do que a uma obra — quando não em busca da reciprocidade… oh, asco!… — E, exatamente por este motivo, corroem a obra posto tornam-se elementos fundamentais da pose, vista miseravelmente como o elemento de distinção do artista. Em resumo: o artista vê-se dependente dos aplausos, ceifando na obra aquilo que os repele, ou seja, acaba fazendo da obra, também, parte da pose, tornando-se tudo, menos sincero. E como são numerosos! Humilhante? deplorável? Que dizer desta nação de escravos do elogio? Faltam-me palavras…

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A lição de Victor Hugo

Já há três meses dedicando-me a fechar um pequeno volume de poemas, lutando contra a sensação desalentadora de nunca considerar um único soneto finalizado, é com espanto que penso nos mais de 150 mil versos que Victor Hugo finalizou em apenas uma vida. Certa vez, li alguém a dizer que tamanha produtividade comprometeu a qualidade destes versos. Raciocínio demasiado óbvio e que não resiste a um exame apurado. A mim, o escandaloso em Victor Hugo é a disciplina digna do maior nome da literatura francesa. Mérito imenso, e assaz instrutivo…

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Ao abrir um livro, não assino um contrato

Lembro-me do dia em que fiz esta magnífica descoberta: ao abrir um livro, não assino um contrato comprometendo-me a lê-lo até o final. Logo brilhando a ideia, transferi, sorrindo, o volume das mãos à prateleira. Desde então, tenho exercido meu direito com frequência cada vez maior. As obras variam, os motivos também: por vezes, o desprezo fala; por outras, grita minha própria inaptidão. E, servindo-me desta utilíssima técnica de pressionar com as mãos a capa contra o verso do livro, aprendi que algumas obras exigem o momento, exigem um preparo adequado (em especial quanto ao domínio do idioma) para se mostrarem úteis ou agradáveis. Assim, fechando-se um livro pode-se poupar tempo, evitar um desgaste desnecessário e impedir que uma experiência futura gratificante queime-se por uma pressa injustificada.

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